quinta-feira, 16 de abril de 2015

Os Dias Lindos


"Não basta sentir a chegada dos dias lindos. É necessário proclamar: "Os dias ficaram lindos".

Acontece em Abril, nessa curva do mês que descamba para a segunda metade. Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-lo em linguagem especial. Nenhuma autoridade, munida de organismo publicitário, tirou partido do acontecimento. Discretos, silenciosos, chegaram os dias lindos.

E aboliram, sem providências drásticas, o estatuto do calor. [...]

A cor. Redescobrimos o azul correto, o azul azul, que há meses se despedaçara em manchas cinzentas no branco sujo do espaço. O azul reconstituiu-se na luz filtrada, decantada, que lava também os matizes empobrecidos das coisas naturais e das fabricadas. A cor é mais cor, na pureza deste ar que ousa desafiar vapores, emanações e fuligens da era tecnológica. E o raio de sol benevolente, pousando no objeto, tem alguma coisa de carícia.

(...) certos  dias de abril e maio são mais lindos do que os outros dias em geral, e nos integram num conjunto harmonioso, em que somos ao mesmo tempo ar, luz, suavidade e gente."

[Carlos Drummond de Andrade]

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Os Resíduos do Dia


Há de se explicitar que Stevens é um homem triste. No entanto, essa tristeza parece invisível aos olhos dele mesmo. Narrador da sua própria história, o protagonista de "Resíduos do Dia" - livro de Kazuo Ishiguro - é um mordomo inglês que dedicou grande parte da vida em servir Darlington Hall, na Inglaterra do início do século XX.

"Decerto, um grande mordomo é grande em virtude de sua capacidade de habitar seu papel profissional - e de habitá-lo até o fim. Não se deixa abalar por acontecimentos externos, por mais surpreendentes, alarmantes ou constrangedores que sejam. [...] Trata-se, como disse, de uma questão de dignidade."

De modo tocante, acompanhamos as lembranças desse protagonista e seu modo peculiar em lidar com as próprias emoções. Camuflados pelas obrigações atribuídas a seu papel, os sentimentos de Stevens se mantêm nas entrelinhas daquilo que nunca é pronunciado. E aqui há de se ressaltar a delicadeza com a qual o autor trata esses sentimentos, [re]velando-os com uma sutileza que impressiona.

Guardados nas pausas e nas dúvidas daquilo que é lembrado pelo mordomo em uma viagem de cinco dias, os acontecimentos do livro vão descortinando os bastidores de um relacionamento entre Stevens e uma antiga governanta com quem trabalhou anos antes. Os diálogos travados entre os dois realçam o talento de Ishiguro no desenvolvimento da história, pois em cada fala estão contidos, ao mesmo tempo, os limites e os horizontes desses personagens.

A natureza solitária e contida do protagonista combinada com a forte personalidade da governanta constituem um embate sublime sobre o entrelaçamento das diferenças. Fiquei particularmente comovido com a reflexão sobre público e privado, desejo e responsabilidade contida nas páginas desse romance que já figura entre um dos livros mais bonitos que eu já li.

As mudanças vivenciadas no período pós-guerra são realçadas pela figura do novo patrão de Stevens - um jovem americano que assume a propriedade que outrora pertenceu a Lord Darlington a quem era voltada toda a devoção do mordomo. Daí nascem algumas das cenas mais hilárias do livro por trazer à tona essa necessidade, mesmo que permeada por certa relutância, de encarar o novo e o diferente.

"Se sua casa está pegando foto, você não reune a criadagem na saleta e discute durante uma hora as várias opções de fuga, não é? Isso pode ter sido bom um dia, mas o mundo agora é um lugar complicado."

O princípio de dignidade vastamente perseguido por Stevens faz com que ele se esqueça de olhar para a vida em sua complexidade e descabimento. Ao colocar as obrigações, herdadas pelo pai também mordomo, acima de qualquer outra possibilidade, o que se vê é a figura de um homem fiel, mas perdido num sentimento de inadequação diante de um mundo em mudança.

"Pergunte a qualquer um e vai ver só. A noite é a melhor parte do dia."

Refinamento e melancolia dão o tom dessa história onde o profissionalismo exacerbado parece podar qualquer vestígio de felicidade. Os resíduos do título, muito bem explorados na parte final do romance, apontam para frente como se sugerissem um outro jeito de estar no mundo. Difícil é mudar quando nos resta apenas a noite de um dia inteiro tomado por anulamentos.

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 7 de abril de 2015

Em meio ao ensaio

Em meio ao ensaio, a mão se estende e aponta, com fúria, a brandura da noite que eu não consigo enxergar.






Fotos: Wolney Fernandes

sábado, 4 de abril de 2015

Anúncio de Páscoa


Os anúncios pascais eram acesos em círios que se derretiam em homilias vazias de sentido. Chama oca que aquecia os preceitos em detrimento da experiência incrível que é saborear o mundo por meio daquilo que se é e não do que se parece ser.

Para agora, sem círio, sem fogueira nem chama, mas dentro de mim mesmo e para fora daquilo que me oprime, meu anúncio pascal é proclamado e atualizado nas palavras de Guimarães Rosa:

"O Menino não entendia. A mata, as mais negras árvores, eram um montão demais; o mundo.
Trevava.
Voava, porém, a luzinha verde, vindo mesmo da mata, o primeiro vagalume. Sim, o vagalume, sim, era lindo! - tão pequenino, no ar, um instante só, alto, distante, indo-se. Era, outra vez em quando, a Alegria."

Imagem capturada aqui: forum.rise-n-fall.com