domingo, 22 de março de 2015

Os Mil Outonos de Jacob De Zoet


O David Mitchell eu conheci em 2008 quando li "Menino de Lugar Nenhum" e o livro se tornou um dos meus favoritos. Depois eu passei pelo incrível Atlas das Nuvens, mas quando li a sinopse de "Os Mil Outonos de Jacob De Zoet" me bateu uma frustração porque se tratava de um livro de aventura - gênero que não me atrai muito - com trama passada no Japão no final do século XVIII onde meu interesse é praticamente nulo. Mesmo reticente eu resolvi conferir o livro que acabou me conquistando, página a página, no modo detalhado como o autor consegue contar a história de um jovem escrituário que deixa sua vida na Europa e parte para o Oriente em busca de fortuna na feitoria mantida por holandeses às margens da costa de Nagasaki.

Envolto em negociações firmadas entre o pensamento ocidental e o oriental, Jacob é responsável pelo registro daquilo que acontece no local. O jovem é um protagonista solitário que, diante das dificuldades de se enturmar, funciona como ponte para que a gente compreenda as diferenças entre uma cultura e outra. Motivado por um idealismo mantido por sua história de vida, Jacob amadurece diante dos acontecimentos que testemunha e que não são poucos.

Organizado em cinco partes, o livro mantém uma estrutura que parece um palimpsesto de camadas flutuantes, uma vez que os coadjuvantes da primeira parte são trazidos à tona, na segunda, para revelar segredos e nos fazer mergulhar em pormenores obscuros da história. Essa movimentação entre as camadas narrativas é fluida o suficiente para manter o interesse do leitor e, por vezes, apresenta ganchos que tornam impossível fazer paradas durante a leitura. Em alguns pontos, os fatos apresentados suspendem sua respiração e logo em seguida, um corte na narrativa faz você se enfurecer por não ter as respostas para aquela suspensão na sequência. Desse modo, cenas inteiras mostradas no início só vão fazer sentido no final e isso pode acabar deixando rastros de frustração caso não se consiga atravessar as 568 páginas do livro.

"O desejo induz os pais a terem bebês tanto quanto o imprevisto, a obrigação (...) mas talvez os mais bem-aventurados sejam aqueles que nascem do impensado pensamento de que o abismo intolerável que separa os amantes só pode ser transposto pelos ossos e pela cartilagem de um novo ser."

Me impressionou bastante a riqueza de detalhes dada pelo autor ao se referir a um período muito específico da história do Japão e de um cotidiano muitas vezes envolto em mistério. Isso faz a narrativa ficar crível, mesmo se tratando de um livro de ficção. O modo como Mitchell orquestra sua aventura é permeado com delicadezas que se desprendem daquilo que os personagens trazem de mais íntimo. E aí reside uma das tantas qualidades do autor que consegue dar tridimensionalidade dramática ao mais insignificante dos coadjuvantes, apresentando cada um deles com seus medos, anseios e frustrações.

"De um instante para outro, desaparecemos, Shiroyama pensa. Há profundidades por trás das planitudes."

Apesar dessa riqueza de detalhes, nada é gratuito no livro. Da cor ruiva dos cabelos de Jacob até o modo peculiar de servir o chá são descritos com propósitos muitos específicos que, além de enriquecer a trama, funcionam como chaves de leitura para os temas abordados pelo autor. E eles são muitos. Ao entrelaçar as duas culturas, Mitchell aproveita as brechas para levantar discussões em torno de preceitos científicos e religiosos, da intolerância racial e das humanidades que independem de tons de pele ou nacionalidades e ainda questiona a redução do papel da mulher dentro de uma sociedade predominantemente machista.

"Dê-me coragem, Jacob reza. 'Minha vida está nas mãos de Deus.' 
Ah, quanto sofrimento essas palavras breves e fervorosas podem trazer."

No entanto, nada é panfletário e diferentes pontos de vistas são apresentados com uma desenvoltura invejável. Alternando esses diferentes enfoques narrativos, o livro apresenta um recheio bem diversificado. E tem de tudo: aventura com navegadores, mercenários e samurais, romances arrebatadores e triângulos amorosos, vilões ardilosos e um suspense construído com a mais fina ironia que eu já testemunhei.

"O melhor médico de Middelburg guarda um semblante sombrio, mas está satisfeito por ter feito tudo o que era possível pelo paciente durante o breve e lucrativo período da doença e porque poderá chegar em casa a tempo do jantar."

Através de uma escrita sensível, Mitchell conseguiu mais uma vez emocionar-me em diversos pontos da narrativa, mas uma em especial eu gostaria de registrar que é o encontro amoroso entre Jacob e a parteira Orito, fruto do seu interesse. Os dois se encontram em uma horta e a cena envolve ramos de alecrim, significado dos nomes e o sabor de um caqui que toma contornos eróticos ao ser degustado pelo protagonista:

"Sem faca ou colher à mão, ele prende a pontinha da casca cerosa entre os indicadores e a rasga; o suco escorre pelo corte; ele lambe os pingos adocicados, suga para fora um naco gotejante de carne filamentosa e o prende suavemente, suavemente, contra o céu da boca, onde a poupa desintegra em jasmim fermentado, canela oleosa, melão perfumado, ameixas derretidas... e no coração da fruta ele encontra dez ou quinze pedras chatas, da mesma cor marrom e formato dos olhos asiáticos. (...) e como um diapasão posto a vibrar, Jacob reverbera com as partes e com o todo de Orito, com tudo o que faz com que ela seja ela. (...) A Criação não terminou na sexta noite, ocorre ao jovem. A Criação se desdobra ao redor de nós, apesar de nós e através de nós, na velocidade dos dias e das noites, e gostamos de chamá-la de Amor."

Precisa dizer mais?

Precisa! Só mais uma coisa: se você não gosta de spoilers como eu, evite ler as orelhas desta edição porque ela traz um acontecimento importante por onde todo o andamento da trama é apoiado.

Foto: Wolney Fernandes

sexta-feira, 20 de março de 2015

Em busca do tempo perdido


A experiência de ler Proust pela primeira vez foi permeada por sentimentos controversos e já digo, de antemão, que é preciso persistência para atravessar as lembranças desfiadas pelo autor nesse primeiro volume da série "Em busca do tempo perdido". Não quero dizer com isso que seja uma leitura difícil em função de um rebuscamento ou uma erudição que se findam nelas mesmas. Não é! A questão é que Proust escreve sobre detalhes e divaga, com muita propriedade, sobre resquícios do efêmero. Mais do que acontecimentos, o que importa em sua escrita parece ser a experiência que se extrai desses mesmos acontecimentos. O narrador da história se detém na observação profunda daquilo que aguça seus sentidos e investiga as sensações e as memórias que se descolam deles.

"Em breve, maquinalmente, acabrunhado com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta migalhas do bolo, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim."

E assim, desde a luz que o desperta pela manhã até o gosto da "madalena" que se dissolve na boca transmutam-se em descrições elaboradas com um apuro estético de encher as vistas. As palavras, cuidadosamente lapidadas, compõem uma espécie de mosaico ornamentado pela experiência do sensível que se desdobra diante de um sabor, de um som, de um cheiro, de um lugar...

"Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Senti que estava ligada ao gosto do chá e do bolo, mas que o ultrapassava infinitamente e não devia ser da mesma natureza. De onde vinha? Que significava? Onde apreendê-la?"

O livro é dividido em três partes. Na primeira delas [minha preferida, diga-se de passagem] diante de um fiapo de história somos apresentados pelos personagens que orbitam em torno do narrador e que irão exercer alguma influência sobre ele no futuro. Há os membros da família, passando pelos avós e os tios mais distantes, mas não só. Pela figura do Sr. Swann, um amigo da família, passamos também a acompanhar outra gama de personagens que serão os protagonistas da segunda parte do livro. E foi exatamente nesse ponto da narrativa que comecei a ter que me esforçar um pouco mais na leitura, uma vez que o autor parece andar em círculos para contar a história de amor entre Swann e Odete e de como o amor pode se retrair diante de um ciúme desmedido.

"Antes, sonhava-se possuir o coração da mulher amada; mais tarde, sentir que se possui o coração de uma mulher pode bastar para que nos enamoremos dela. E como antes de tudo se procura no amor um prazer subjetivo, assim, nessa idade em que seria de esperar que o gosto pela beleza feminina constituísse a maior parte desse sentimento, pode nascer o amor sem que tenha havido em sua base um desejo prévio. Nessa época da vida já se foi atingido várias vezes pelo amor e este já não evolui por si mesmo segundo as suas próprias leis desconhecidas e fatais, ante o nosso coração atônito e passivo."

Há de se entender a insistência do autor em investigar a natureza desses dois sentimentos gigantescos, mas foi aqui que senti que a leitura começou a se arrastar. O movimento em torno da vida social parisiense do início do século XX é ricamente escancarado e isso ajudou bastante a manter meu interesse pelo livro. Mexericos, arranjos sociais, traições e toda sorte de infortúnios advindos de um convívio em festas e jantares não deixam "a peteca" cair. Há de se ressaltar também os diálogos afiados e muito bem elaborados que fazem o texto vivo e pulsante.

Na terceira parte do livro encontramos o narrador, já adolescente, e acompanhamos as belezas do primeiro amor incrustadas em referências cotidianas e que aguçam a curiosidade para se enveredar pelo segundo volume. Ultimamente andava com uma preguiça fenomenal em ler séries literárias, mas Proust conseguiu soprar pra longe esse meu desânimo. Apesar de lenta, a leitura de "No Caminho de Swann" foi repleta de bons momentos. É, sem dúvida, um livro incrível, mas difícil de atravessar em função dessa relação tão íntima com os detalhes e divagações que parecem infindáveis dentro da escrita que, a meu ver é o ponto alto da obra. Proust tem a capacidade de suspender nossos pensamentos congregando todos os sentidos para aquilo que lemos.

Ao terminar de ler, fiquei pensando que a dimensão da sensibilidade descrita por Proust toca naquilo que compõe a matéria-prima da arte. É pelos sentidos que experimentamos o mundo e ao se debruçar naquilo que ele chama de lembranças involuntárias, acaba por nos provocar a olhar para dentro de nós mesmos [bem lá no fundo] e, então percebermos, na partícula mais ínfima daquilo que nos constitui, um universo inteiro a explorar.

"Os lugares que conhecemos não pertencem tampouco ao mundo do espaço, onde os situamos para maior facilidade. Não eram mais que uma delgada fatia no meio de impressões contíguas que formavam a nossa vida de então; a recordação de certa imagem não é senão saudade de certo instante."

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 19 de março de 2015

O que me falta é nada


O território demarcado por meu papel como artista, mesmo no campo da arte, sempre foi uma zona de risco, de desconforto e inadequação. E não tem sido diferente agora. Os sentidos invisíveis que fazem circular meus desejos poéticos se cumprem em revoluções internas, mas se entopem toda vez que preciso deles para continuar. E aquilo que eu sou se retrai em silêncios pronunciados na dureza de quem tem que conjurar: “só desta vez” ou “só até terminar isso ou aquilo”. Nessa pretensa efemeridade, meio cheio de tudo, mas oco daquilo que me refaz, faço caber tornados e ventanias em recipientes onde também preciso me equilibrar. O que me falta é nada. É só ar.

Foto de Nino Cais

segunda-feira, 2 de março de 2015

A Vida na Hora - Poemas de Wislawa Szymborska


Porque afinal cada começo 
é só uma continuação
e o livro dos eventos 
está sempre aberto ao meio.

Os poemas de Wislawa Szymborska (pronuncia-se Vissuáva Chembórska) me fez vir aqui para escrever sobre um livro de poesia. Tarefa árdua e um tanto nova para alguém que, como eu, mergulha nos versos e, por vezes, não deseja (ou não consegue) mais emergir. Caso os parágrafos abaixo não façam sentido algum, peço desculpas porque daqui do meio dos versos a realidade parece bem mais assombrosa e repleta de fabulações.

Não há devassidão maior que o pensamento.

Sob o signo da simplicidade, os poemas de Wislawa dão conta das profundezas contidas nas coisas miúdas e daquilo que preenche os dias mais comuns. Seus versos carregam um frescor e uma alternância entre a dor e a beleza das experiências vividas. Conseguem estreitar laços entre o privado e o político e ainda possuem uma capacidade de questionar as dúvidas que rondam nossa capacidade de ordenar o mundo.

Sem apelar por nenhum tipo de sentimentalismo, a poeta nascida na Polônia e ganhadora do Nobel de Literatura orienta nosso olhar para o prosaico sob um ângulo inusitado. 

Comparada com as nuvens
a vida parece muito sólida,
quase perene, praticamente eterna.
[...]
Sobre a tua vida inteira
e a minha, ainda incompleta,
elas passam pomposas como sempre passaram.

Não têm obrigação de conosco findar.
Não precisam ser vistas para navegar.

Há traços de uma intensa preocupação com o gênero, pois a perspectiva de vários poemas são desenhadas para marcar um olhar feminino.

Vietnã
Mulher, como você se chama? – Não sei.
Quando você nasceu, de onde você vem? – Não sei.
Para que cavou uma toca na terra? – Não sei.
Desde quanto está aqui escondida? – Não sei.
Por que mordeu o meu dedo anular? – Não sei.
Não sabe que não vamos te fazer nenhum mal? – Não sei.
De que lado você está? – Não sei.
É a guerra, você tem que escolher. – Não sei.
Esses são teus filhos? – São.


Entre o peso dos temas e a leveza de sua escrita, residem a ironia e um olhar teatral para aquilo que nos move. A poesia de Wislawa coloca o foco na vida como se ela se movimentasse entre o palco e as coxias fazendo os sentidos transitarem entre lá e cá numa mistura visceral que pede licença para "que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha".

A Vida na Hora
A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.

De que se trata a peça
devo adivinhar já em cena.

Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando,
é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado-eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira
antes ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avisinha a sexta com um roteiro que não conheço.

Isto é justo-pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear
nos bastidores).

É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.
E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.


Foto: Wolney Fernandes
Trechos dos poemas: Amor à primeira vista; Opinião sobre a pornografia; Nuvens; Sob uma estrela pequenina.