quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Stoner


"...como se o amor e o saber fosse um só processo."

William Stoner vem de uma família humilde que mora no interior dos Estados Unidos e cujo trabalho se efetiva na lida com a terra apenas para a subsistência. Tendo seu destino já traçado na medida do cotidiano sofrido experimentado por seus progenitores, Stoner é surpreendido pelo próprio pai quando este lhe oferece a oportunidade de estudar. Em meio a dificuldades, a faculdade [mais especificamente a literatura] acaba por mudar os horizontes vislumbrado pelo protagonista a ponto dele questionar seu lugar no mundo.

Esse mote pode parecer banal demais se dito assim em um único parágrafo, mas é, sem nenhuma dúvida, a realidade de muitos [a minha, inclusive!]. Mas é à partir daí que a história desse ótimo livro do americano John Williams se desenrola. É claro que a identificação com a história contribuiu bastante para estreitar minha relação com a obra, mas tenho a impressão que ela possui tantas outras camadas capazes de abrir entradas para que algum tipo de aproximação aconteça que minha vontade é reler e ver se isso se confirma.

Confesso que me incomodou um pouco o fato do autor sempre antecipar os acontecimentos que virão a seguir. No primeiro parágrafo do livro já se tem um resumo de como foi a vida toda do protagonista e em vários outros pontos da narrativa, Williams resume o que vai desenvolver depois. No entanto, esse desenvolvimento conseguiu me envolver de modo satisfatório e, em alguns momentos, até me surpreender.

Há de se ressaltar que, por investigar nossas humanidades, Stoner não é um livro fácil. Não que tenha uma escrita hermética ou algo parecido, muito pelo contrário! A dificuldade, aqui, reside no clima melancólico que permeia toda a história e nem sempre é confortável acompanhá-la ou perceber as perdas e as injustiças que transitam em torno dela. Stoner é um homem bom e sereno que se descobre professor, mas que também carrega consigo uma solidão de dimensões continentais e, mesmo depois de ser marido e pai, não abandona esse sentimento. E dói perceber que a consciência do próprio lugar e da própria história de vida não garante facilidades diante das certezas (nem sempre dóceis) que o tempo vai sulcando na vida do herói.

"Em seu quadragésimo terceiro ano William Stoner aprendeu o que outros, muito mais jovens que ele, tinham aprendido antes dele: que a pessoa que se ama no começo não é a pessoa que enfim se ama, e que o amor não é um fim, mas um processo atráves do qual uma pessoa experimenta conhecer outra."

O ambiente acadêmico que serve de pano de fundo para a história é retratado de modo muito fiel em seus encantamentos, em seus jogos de poder e nas relações que transitam [quase sempre] entre a vontade de fazer diferença e a resignação diante daquilo que é impossível mudar. Escrita na metade da década de 1950 e ambientada no período entre guerras, a narrativa chega a espantar por ser tão atual no que diz respeito da vida dentro de uma universidade. A experiência do autor que também foi professor por trinta anos, consegue gerar esse sentimento de verdade diante das situações vividas por um acadêmico. No que diz respeito aos processos, às regulações e aos labirintos burocráticos, chega a dar medo perceber que depois de cem anos muita coisa continua ressoando de modo idêntico ao que se faz, atualmente, nos corredores universitários.

Com um final difícil de encarar, Stoner resvala naquele sentimento profundo que dá sentido às nossas escolhas e permite questionar os limites construídos entre a razão e a experiência. A história do camponês solitário que encontra na literatura um sentido para a vida mostra, com precisão dolorida, como a vida acadêmica pode aplainar nossos sentidos, nossas paixões e a matéria vital daquilo que nos [co]move. É preciso vigilância constante para que seja de outro modo. Vigiemos!

Imagem: Wolney Fernandes

2 comentários:

Aline Aimée disse...

Nossa, acho que a sua resenha foi a que me mais me deixou com vontade de conferir o romance.
Parece o tipo de coisa que me absorveria no ato.

Pat disse...

Wolney, comprei hoje, desde que li seu post estava pensando sobre esse livro. Obrigada Pat