sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Nome próprio


Para soletrar usando notas musicais.

01. Romeo - Thiago Pethit
02. Laura - Bat For Lashes
03. Daniel - Elton John
04. Jezebel - Depeche Mode
05. Dolores - Frank Sinatra
06. Natasha - Rufus Wainwright
07. Terezinha - Cesaria Evora
08. Rosa Maria - Ceumar & Itamar Assumpção
09. Lola - Mika
10. Eva - Radio Taxi
11. Isaac - Madonna
12. Jimmy - Moriarty
13. João e Maria - Nara Leão
14. Jessica - Regina Spektor
15. Emily - Dan Griffin
16. Fernando - Abba
17. Judy - The Pipettes
18. Napoleão - Ney Matogrosso & Pedro Luís e a Parede
19. Michelle - The Beatles
20. Yolanda - Simone & Chico Buarque
21. Miriam - Norah Jones
22. Léo e Bia - Oswaldo Montenegro
23. Annie - James Blunt
24. Sophia - Laura Marling
25. Isobel - Dido
26. Antonico - Gal Costa
27. Amie - Damien Rice
28. Beatriz - Mônica Salmaso & Pau Brasil
29. Aline - Christophe
30. Seu Nome - Luiza Possi

A foto eu encontrei aqui.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O apanhador de desperdícios*


Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.

Texto: Manoel de Barros
Foto: Wolney Fernandes

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O Pintassilgo - tentativa de nos conectar a uma beleza maior


"Amar demais os objetos pode te destruir. Mas, se você ama uma coisa o suficiente, ela ganha vida própria, não ganha? E o objetivo todo das coisas - das coisas belas - não é te conectarem a uma beleza maior?"

Falar de "O Pintassilgo" de Donna Tartt é falar também da minha paixão por imagens e objetos que, com um tanto de apreço e um pouco de ilusão, guardo comigo numa vontade menina de que, por eles, a vida continue de outro modo. Foi assim com a viola que pertenceu a meu pai, com as cartas de amantes do século passado que encontrei numa feira de antiguidades na Cidade do México, com a bandeira de folia do meu avô e com os livros e fotos que trazem dedicatórias anônimas… A posse desses artefatos faz circular histórias, intimidades, dores, saudades e outros mistérios que se misturam aos meus próprios por razões que eu próprio desconheço.

Com Theo Decker, protagonista do livro, também é assim. A posse de uma pintura que chega às mãos desse garoto de 13 anos vai alterar, significativamente, as escolhas e rumos que ele precisa traçar - ou que traçam pra ele - depois de um trágico acidente vivenciado no Metropolitan Museum, em Nova York.

"O Pintassilgo" do título faz referência direta à uma pequena pintura do século XVII do holandês Carel Fabritius que acaba nas mãos de Theo e segue com ele por toda a trama. Uma história muito bem escrita em quase 800 páginas de reviravoltas que iniciam em Nova York, continuam em Las Vegas e terminam em Amsterdam que é onde o livro começa.

Por um enredo que se move como um jogo de espelhos entre destino e livre arbítrio, o que se vê é um herói atormentado por um evento que vai marcá-lo vida afora. No espaço entre ser o que se deseja e ser aquilo que realmente se é, a autora consegue esboçar questões que ressoam para além do romance.

"Um eu que não se quer. Um coração que não se pode evitar."

A aventura pelo submundo da arte, seus originais e falsificações compõem, com muita propriedade, esse cenário onde perda, obsessão e sobrevivência são sentimentos que sempre vem à tona. Abandonado pelo pai e sozinho diante das perdas que o acidente lhe impõe, Theo se apega à misteriosa pintura que o levará a questionar sua ligação com um passado que ele desconhece e com as relações que irá estabelecer vida afora.


"Se uma pintura realmente afeta e muda sua maneira de ver, de pensar, de sentir, você não pensa 'Ah, eu amo essa pintura porque ela é universal' (...) Não é por isso que alguém ama uma obra de arte. É um sussurro secreto vindo de um beco. (…) Um choque individual no coração."

Embora os "ganchos" sejam bem poucos entre um capítulo e outro, a leitura transcorre de forma fluída muito em função de uma escrita bem articulada e cheia de imagens sutis que ajudam a compor um painel hipnotizante - destaque para as cenas de ação no Metropolitan - que nos leva ao fim do livro com muita rapidez. E é justamente no final onde está o grande escorregão da obra, pois só ali vemos as reflexões do protagonista tomarem forma de uma tacada só e Donna Tartt faz isso de um jeito bem primário. Quase como uma bula explicativa, a autora parece temer outras interpretações que não aquela que ela faz transbordar em páginas desnecessárias.

Theo passa grande parte do livro cometendo os mesmos erros e só no final, com 27 anos, parece reconhecê-los de uma tacada só. A meu ver, teria sido mais sensato espalhar "os aprendizados" [se é que é preciso haver algum] durante a jornada de amadurecido do herói.

Essa pequena decepção [que não estraga o prazer da leitura] me fez pensar que os reconhecimentos e os questionamentos que fazemos vida afora nunca se completam e é justamente em função dessa incompletude que seguimos na tentativa de nos conectarmos "a uma beleza maior". Tenho suspeitado que o grande mistério da vida é essa conexão que pode ser estabelecida, gradativamente, à partir do olhar de um passarinho pintado há muito ou de um abraço desejado e rabiscado com caneta Bic no verso de uma foto.

Foto: Wolney Fernandes
Pintura de Carel Fabritius

sábado, 20 de setembro de 2014

Letra sem melodia


Um pedacinho de papel brinca de desafiar os carros no meio da rua: leve e feliz. Sobe, desce, passeia na altura da janela do terceiro andar, faz um looping e se mete entre um carro vermelho e outro prata. Fragmentos dessa manhã de sábado, quente e sem qualquer plano pronto para o resto de toda a vida.

- Um dia de cada vez. Não é assim?

O coração, sem sossego, bate em disritimia. A barba tenta esconder, sem sucesso, o trincar dos dentes em desalinho. O passeio disfarça, por breves esquinas, a pouca vontade de ficar em casa. O mormaço desse tempo que se prepara para parir a primavera comprime todas as minhas vontades. Se é que resta alguma. Ando com vontade de nada. Isso sim!

Essa sinceridade sem premeditação denuncia um quase calar-se no meio da frase, incomoda às vezes, mas inspira a não deixar meias verdades entre os lábios e a garganta.

- Língua não é pra isso, eu bem sei!

Assim, sem meias verdades ou meios planos ou pensamentos meio tortos é que vale ter um emaranhado de saudade daquilo que ainda não vivi.

- São metáforas, baby. Vem cá que eu te explico.

E depois de tanto tempo, me descubro um homem cheio de metáforas, uma letra de música que ainda não conhece a melodia.

Foto de Ben Zack

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Canções de "O Quinto Beatle"


"O Quinto Beatle" é uma Graphic Novel baseada em recortes da vida de Brian Epstein, visionário que descobriu e guiou os Beatles a um estrelato sem precedentes nos anos 1960. Brilhantemente escrita também à partir de [outras] referências musicais daquele período, a narrativa é muito bem elaborada e consegue entrelaçar várias canções como pano de fundo para uma história repleta de sonhos, apagamentos e outras delicadezas.
Escuta só!

01. Wondrous Place - Billy Fury
02. Love Of The Loved - Cilla Black
03. Anyone Who Had a Heart - Cilla Black
04. If Love Were All - Hellen Merrill
05. Blue Skies - Irving Berlin
06. We Love You, Beatles - The Carefrees
07. All You Need Is Love - The Beatles

Imagem capturada aqui.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Entre a delicadeza e a brutalidade de "Nossos Ossos"


"Quando eu morrer me enterrem dentro do coração de meu pai." 
[Amarildo Anzolin]

Feito movimento espiralado, o final de "Nossos Ossos" me remeteu, novamente, ao seu começo. Uma espécie de repetição sugerida pelo modo como a trama é estruturada. Minha vontade de releitura imediata, de escavar a escrita de Marcelino Freire foi impulsionada pelo desejo de buscar significados perdidos entre um parágrafo e outro, entre uma palavra e outra. Como se na dureza do que estava escrito ali houvesse uma fragilidade que precisava ser apurada.

O livro conta a história de Heleno, dramaturgo pernambucano que consolida sua carreira em São Paulo. Diante do assassinato de um amante e de uma crise interna, ele precisa lidar com o desejo e a burocracia de remeter o cadáver "do boy" para o interior do Nordeste. O livro é dividido em duas partes e capítulos bem curtos que se alternam entre a saga vivenciada no presente e algumas memórias desfiadas entre a infância e a chegada do protagonista na capital paulista.

Tendo o sofrimento como marca determinante para narrar a história de seu protagonista, Marcelino Freire deixa entrever doçuras e fragilidades entre as frestas abertas pela luxúria e ironia constantes. Uma gama de matizes emocionais que deixam o livro bem mais complexo do que aparenta. 

"Capa de couro bovino, espada de fêmur, saiote de cóccix e uma máscara natural, a minha cara borrada de carvão, gesticulava feito um demônio, assustava a todos com a minha voz de trovão saída do estômago, em pé, eu, sobre uma pedra, no deserto que foi a minha infância. 
Minha dramaturgia veio daí, hoje eu entendo, desses falecimentos construí meus personagens errantes, desgraçados mas confiantes, touros brabos, povo que se põe ereto e ressuscitado, uma galeria teimosa de almas que moram entre a graça e a desgraça."

A decisão do autor em estruturar os parágrafos só com o uso de vírgulas incomoda no início, mas logo a gente entra no ritmo e a leitura parece fluir com mais facilidade. Marcelino explica melhor esse recurso em uma entrevista que pode ser vista aqui.

Há ainda uma espécie de denúncia social diante da violência e da intolerância que rondam imigrantes, homossexuais e qualquer pessoa que não se limita a "rezar" segundo a cartilha da heteronormatividade. No entanto, essa denúncia não é permeada pelo compadecimento, mas pelo desnudamento de situações de dor que expõem, paulatinamente, as mazelas de uma sociedade machista e violenta. Há alguns escorregões aqui e ali, como por exemplo a notícia de que um dos personagens é soropositivo e que, a meu ver, é desnecessária para o andamento da história que, na altura dessa revelação, já se apresenta muito bem encaminhada. 

A escrita, que oscila entre a delicadeza e a brutalidade é capaz de criar imagens marcantes - "(...) seu rosto era feito de um pergaminho, estava escrito, nos livros mais esquecidos, tanto sofrimento". É preciso fôlego para dar conta das cores intensas com as quais o autor pinta o retorno do seu personagem à sua terra natal. 

"(...) por que a gente, em vez de ser enterrado em um chão, seco, não faz do oceano o nosso leito derradeiro, nosso abismo prateado, um céu ao fundo, vertical, abaixo, cheio de estrelas, luas, astros, planetas desconhecidos?"

Com o porte de uma novela, "Nossos Ossos" parece carecer de mais páginas e talvez também tenha sido isso que me levou à uma releitura imediata, com mais pausas, como se precisasse de mais tempo para chegar àquele final.

Sim, é um daqueles finais que nos deixam atordoados diante das revelações que ele contém. 

Mesmo amparado por um derradeiro recurso que abre brechas para dúvidas e inquietações acerca do que foi lido, o livro é honesto e marca, com qualidade, a estreia do autor nesse formato. Vale a pena uma conferida!
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"Nossos Ossos" foi uma leitura compartilhada com o Bruno LazzFar do canal Des Palavreando.

Quando é difícil ser só espectador


O moço não estava nem aí pro movimento de ônibus e carros e pessoas apressadas pra chegar em seus destinos variados. Foi ali, na Avenida 10, umas quase dez horas e ele estava sujo, cabelo arrepiado, olhar de fome, encostado na parede limpa da igreja. Olhos no céu, pés no chão e todo cuidado do mundo em empinar, como uma pipa, uma sacolinha de supermercado cheia de ar que voava sob os cuidados do vento. Resmungava sei lá o quê.

Não sei ao certo, mas aquilo provocou em mim uma pausa que durou bem mais que o tempo do sinal vermelho.

Tem horas que é difícil demais ser só espectador. Talvez por isso a minha opção em ser roteirista. Ficou apenas um pensamento: se a história fosse minha, eu iria conseguir olhar para o céu?

A foto eu achei aqui.

O Apocalipse dos Trabalhadores


Maria da Graça e Quitéria são diaristas, - ou "mulheres a dias" como se diz em Portugal - fazem bico como carpideiras e protagonizam "O Apocalipse dos Trabalhadores", livro de Valter Hugo Mãe que eu acabei de ler.

Aprisionadas em um cotidiano opressivo, as duas sonham, cada uma à sua maneira, futuros distintos de um presente ausente de sentidos.

"toda a minha vida trabalhei, desde os meus doze anos que lavo roupa e limpo casas em toda a parte e não sei fazer mais nada. não sei fazer amor. eu não sei fazer amor."

Maria da Graça, mesmo casada, é apaixonada pelo senhor Ferreira, um velho que ama a obra de Rilke e passa os dias ouvindo Requiems variados. Quitéria, mesmo pragmática em relação ao amor, acaba enxergando em Andriy, um jovem imigrante ucraniano, a possibilidade de transformar sua necessidade sexual em amor.

Cada apocalipse diário vivenciado pelas amigas é também permeado pelo desejo de não ficar apenas às portas do paraíso, mas de adentrá-lo. Impulsionadas pela certeza de uma vida mais feliz, as duas buscam preencher seus dias com amores colecionados ao sabor da esperança e da certeza da morte.

O livro possui um tom de humor que permeia principalmente os primeiros capítulos. As noites em que Quitéria e Maria da Graça passam velando defuntos são escritas com uma agilidade que impressiona. Os diálogos entre as duas são muito mordazes e capazes de espalhar sorrisos por várias páginas. Há também os sonhos de Maria da Graça com São Pedro diante da porta do céu que faz cócegas a cada parágrafo. 

A escrita primorosa do autor parece nos conduzir progressivamente a um descortinar de tristezas embaladas por alegrias fugazes, pequeninas e diárias. Ao final do livro, percebemos que o tom de humor dá lugar a uma certa melancolia que parece (só parece) encobrir as esperanças cultivadas lá no início.

"acordou pesada. levantou muito ligeiramente a cabeça e começou logo a chorar. era um choro pequeno, de tristeza muito habituada, uma tristeza a vir quotidianamente para sempre, para completar o tempo que ainda teria de viver."

Capaz de criar situações de beleza ímpar, Valter Hugo Mãe consegue fazer da história dessas trabalhadoras portuguesas, a história de muitos, de seres apaixonados para quem o sentido da vida é uma esperança que está sempre no horizonte e, quase nunca, ao alcance da mão.  

Me impressionou bastante como o autor humaniza seus personagens, sem que a gente sinta pena ou os enxergue apenas como estereótipos. Mesmo depois de conseguir "esfregar o coração no chão", continuo achando que a escrita do Valter foi a melhor descoberta literária do ano.

"dizia-lhe, obrigado, quitéria, muito obrigado. e ela desfazia-se em coração e não imaginara nunca que aquele gesto poderia ser o mais mudador de toda a sua vida. aceitou aquele abraço pelo lado mais interior do amor, rasgando com o passado a costumeira ferocidade. [...] e agradeceu-lhe como pôde pela oportunidade única de se humanizar daquela maneira e percebeu a inteligência mais secreta de todas. esta é a inteligência mais secreta de todas, o amor."

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 7 de setembro de 2014

Companheiro de viagem


Fui um dos derradeiros a entrar no avião. Do meu lado, um senhor que podia ser meu avô estava concentrado em olhar para a pequena tela instalada na poltrona da frente.

Pedi licença para me acomodar e ele, dono de uma simpatia silenciosa, olhou-me com um sorriso sereno. Enquanto apertava os cintos, ele sentou novamente e continuou a observar as imagens da TV de bordo. Na tela, um canal de rádio desses em que a música é acompanhada por fotos que se alternam, feito slides de powerpoint programados para repetir um conjunto de imagens. Notei que ele estava sem fones de ouvidos e, tentando um jeito de puxar conversa, ofereci os meus. Ele recusou!

Diante da recusa, minha tímida vontade de conversar se recolheu para as páginas do livro que eu tinha em mãos e decolamos os dois, lado a lado, em um silêncio que só aquele céu parecia caber. 

Meus olhos se mantinham no livro, mas a atenção insistia em observar aquele senhor ao meu lado numa aproximação insana que minha imaginação parecia repetir incessantemente: "E se ele fosse meu avô?" - Estaríamos conversando ou em silêncio? Ele teria aceito meu fone? Por que estaríamos viajando juntos? Ele gostaria de saber a trama do livro que eu lia? Que músicas ele estaria ouvindo? Eu teria insistido pra ele sentar na janela? Ele teria comentado sobre a paisagem que se distanciava de nós?

Num dado ponto da viagem, o senhor se remexeu na poltrona para ajeitar as pernas e resmungou. Aproveitei aquele muxoxo para fazer um breve comentário sobre a falta de espaço cada vez mais evidente em voos do tipo. Olhou me por um momento, mas não emitiu palavra alguma à respeito.

Em meio a possibilidades inventadas, decidi que era hora de me concentrar na leitura, recolher minha imaginação e deixá-la de castigo até segunda ordem.

Já absorto na trama do livro, fui surpreendido pela aeromoça que se aproximou para anotar pedidos de bebida. Imaginando que a pergunta tinha sido feita para ambos, eu e "meu avô temporário" respondemos em uníssono: Coca-cola!

Sorrimos os dois e cada um voltou ao seu silêncio particular. Abri o livro novamente e, antes de retornar àquelas páginas, olhei para a janela do avião com uma saudade daquilo que não vivi. 

Foto: Wolney Fernandes