terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A contadora de filmes

"A Contadora de Filmes" é uma história triste. Daquelas que nos comovem durante toda a leitura. A realidade áspera de um povoado de mineiros no deserto chileno é um prato cheio para uma narrativa familiar e sua penúria diante da crise que se instaura no país.

O foco está na tocante história da narradora que é escolhida pelo pai para ser a única a ir ao cinema com a missão de retornar de lá e contar a história do filme. Seus relatos são tão vívidos e criativos que logo se tornam uma atração no povoado.

A narradora - solicitada primeiro pela família e em seguida por todos da cidade - vai enchendo a vida das pessoas com sonhos que elas, por diversos motivos, não podem consumir diretamente.

A narrativa é breve e ágil. Isso é bom e ruim ao mesmo tempo: bom porque deixa o livro fluir de um modo que não há excessos ou rebarbas a serem aparadas. Ruim porque em várias partes senti uma vontade grande de saber mais daquela família tão peculiar e seus conflitos internos.

"A mesma coisa acontecia com as lembranças mais lindas da minha mãe. As imagens dos poucos momentos felizes vividos com ela iam se desvanecendo na minha memória, inapelavelmente, como cenas de um filme velho. Um filme em branco e preto. E mudo."

Destaco também a bela edição feita pela CosacNaify que divide a narrativa em telas numa alusão perfeita à que se tem dentro de uma sala de cinema.

Li também que o livro vai virar filme pelos olhos e mãos talentosas de Walter Salles. Vamos aguardar!

Livro: A Contadora de Filmes [3/5]
Autor: Hernán Rivera Letelier
Editora: Cosac Naify 

O Segredo e outras histórias de descoberta


O livro da Lygia Fagundes Telles é a reunião de cinco contos que relatam o desvelamento de aprendizados, descobertas do mundo adulto pelos olhares de crianças.

Um conjunto de perdas e ganhos permeados por uma dureza, por vezes, incontornável. Amor, paixão e morte se revelam aos olhos estupefatos de personagens cativantes. Há a menina que, diante do primeiro amor, descobre a própria sexualidade em uma fantasia bonita sobre folhas raras. Há a surpresa do menino que descobre que a mãe é também uma mulher com outros interesses que não apenas os maternais.

Tudo escrito de um jeito delicado, com um acento no aspecto solitário, típico das descobertas desse tempo. As revelações se desdobram em cotidianos minuciosamente descritos por gestos simples, mas prenhos de significado:

"Aonde você vai com esse vestido de maria-mijona?, perguntou minha mãe me dando uma xícara de café com leite. 'Por que desmanchou a barra?' Desviei sua atenção para a cobra que inventei ter visto no terreiro, toda preta com listras vermelhas, seria uma coral? Quando ela correu com a tia para ver, peguei o cesto e entrei no bosque. Como explicar-lhe que descera todas as barras das saias para esconder minhas pernas finas, cheias de marcas de picadas de mosquitos?"

O que se passa com os pratogonistas nos toca porque também já fomos atravessados pelas alegrias e decepções dos momentos de aprendizagem que constituem a matéria da vida.

"Abracei o tronco da figueira e pela primeira vez senti que abraçava Deus".

Um afago e um soco no estômago atuando simultaneamente em descoberta. Achei incrível!
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Livro: O segredo e outras histórias de descoberta
Autora: Lygia Fagundes Telles
Editora: Companhia das Letras

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Jorge Luis Borges - O Fazedor


Borges tem sido uma leitura em múltiplas camadas e, de certa forma, depois de terminar os livros do autor argentino, fico mergulhado nas profundezas de suas palavras por um tempo.

Agora só sei dizer que a primeira parte de "O Fazedor" ainda está inteira em mim. Vou ver se em alguns dias consigo processar tudo e escrever mais coisas aqui.

Por ora, um trecho só do epílogo:

"Um homem se propõe a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de montanhas, de baías, de naus, de ilhas, de peixes, de moradas, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto."
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Livro: O Fazedor [4/5]
Autor: Jorge Luis Borges
Editora: Companhia das Letras

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O Escolhido Foi Você


A Miranda July eu conheci nesse vídeo incrível sobre como lidar com a procrastinação.
Pesquisei e vi que ela é uma cineasta fora do grande circuito de Hollywood e que também é performer e escreve livros.

"O Escolhido foi Você" nasceu enquanto Miranda sofria um bloqueio criativo para acabar o roteiro de seu segundo longa metragem. Curiosa com as histórias das pessoas que colocavam coisas à venda em um jornalzinho de anúncios em Los Angeles, ela decide ir até essas pessoas para entrevistá-las.

Começa então uma aventura que nem ela tinha ideia de como terminaria, já que se depara com histórias incríveis de pessoas que estão vendendo de Ursinhos Carinhosos a jaquetas, passando por girinos e álbuns de fotos, etc.

Acompanhá-la nas visitas à essas pessoas comuns que se revelam um emaranhado de universos complexos faz com a gente entenda porque é preciso "peneirar a vida para saber onde colocar nosso carinho e atenção".

Das dez entrevistas ilustradas por fotografias - feitas durante as conversas - emergem reflexões delicadas da artista compondo um relato muito íntimo sobre mudança de olhar e modos de fazer a vida soar com outros timbres além dos já conhecidos.

O modo de escrever da Miranda compõe uma rede onde ela consegue atar humor, ironias, relações e arcos que amarram o pensamento de maneira invejável (principalmente pra quem, como eu, está no meio da escrita de uma tese). Um bom exemplo disso está no diálogo que ela escreve para o roteiro do filme e nos é apresentado no meio do livro:

"Sophie - Daqui a cinco anos vamos ter quarenta anos
Jason - Quarenta é quase cinquenta, e depois de cinquenta o resto é só troco miúdo.
Sophie - Troco miúdo?
Jason - Com ele não dá pra comprar nada que a gente quer"

Depois, lá no final do livro, após a primeira conversa com o último entrevistado, diante dos 80 anos de Joe, um senhor aposentado que faz cartões artesanais para a esposa, Miranda reflete:

"Pensei nos seus sessenta e dois anos de cartões ternos e obscenos, e alguma coisa se desenrolou dentro de mim. Talvez eu tivesse calculado mal o que restava da minha vida. Talvez não fosse troco miúdo. Ou quem sabe a coisa toda fosse troco miúdo do começo ao fim - muitos, muitos pequenos momentos, cada feriado, cada Dia dos Namorados, cada ano insuportavelmente repetitivo e ainda assim de alguma maneira sempre novo. Eram só todos aqueles dias, mantidos juntos apenas pela memória frágil de uma pessoa - ou, se tivermos sorte, de duas. E por causa disso, dessa falta de significado ou de valor inerente, era admirável. Como a mais intrincada e radical obra de arte, o tipo de arte que eu estava sempre tentando fazer. Aquilo se atrevia a não significar nada e com isso exigia tudo da gente."

Enfim, creio que nada mais preciso ser dito, né? Leitura recomendada!
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Livro: O Escolhido foi Você [4/5]
Autora: Miranda July
Editora Companhia das Letras

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 9 de fevereiro de 2014

A Hora dos Ruminantes


Manarairema é uma cidadezinha pacata do interior onde todos se conhecem. A vida segue em ritmo lento e sem surpresas, até que uma manhã traz uma novidade que muda completamente a rotina dos habitantes: um acampamento nos arredores da cidade surge trazendo homens estranhos àquela realidade.

Esse livro eu conheci por indicação da Rosi Martins que me emprestou dizendo ser um dos melhores do autor goiano.

A história chamou minha atenção por mostrar costumes e afazeres de um cotidiano muito próximo ao que vivenciei na minha cidade natal nos anos vividos por lá. A narrativa permeada por um realismo fantástico, parece saída da boca dos mais velhos e recheadas com tiradas ótimas, do tipo:

“A fala de cada um devia ser dada em metros quando ele nasce. Assim quem falasse à toa ia desperdiçando metragem, um belo dia abria a boca e só saía vento”.

A trama dá margem a diversas interpretações e nos leva a uma atitude de hesitação diante de um acontecimento que não apresenta explicações naturais - como a invasão de cães e de bois ocorrida no vilarejo - ocupando, portanto, o tempo da incerteza.

Só o que sabemos é que os acampados estão sempre trabalhando, são de pouca conversa e não querem se misturar com a população local. Logo, os nativos fazem todo tipo de especulação sobre quem são os invasores e o que fazem ali. Quando as tentativas de aproximação iniciais falham, a curiosidade dá lugar à raiva e à inveja.

Numa abordagem fabulesca , José J. Veiga nos apresenta um enredo instigante em que se analisa o comportamento humano diante das mudanças, do inusitado e do incompreensível.

Gostei também do modo como o autor utiliza a escrita com descrições capazes de embelezar o tempo e suas virações e apresentá-las através de imagens que traduzem um esmero desmedido. Confiram!

Ao anoitecer:
"Manarairema ao cair da noite - anúncios, prenúncios, bulícios. Trazidos pelo vento que bate pique nas esquinas, aqueles infalíveis latidos, choros de criança com dor de ouvido, com medo de escuro. Palpites de sapos em conferência, grilos afiando ferros, morcegos costurando a esmo, estendendo panos pretos, enfeitando o largo para alguma festa soturna. Manarairema vai sofrer a noite."

Ao amanhecer:
"O dia seguinte amanheceu chuvoso, uma chuvinha de peneira fina. Uma poalha acinzentada cobria os morros, o rio, a distância, dando à paisagem uma feição de mundo nascente, bezerro recém-lambido, ainda molhado da língua materna. Sentadas perto do fogão nas cozinhas enfumaçadas as pessoas bebiam café ouvindo as queixas dos sabiás nas jabuticabeiras. Ninguém lamentava o estorvo do tempo, aquela chuva era um pretexto para passar a manhã em casa descansando, dando balanço."

Precisa dizer mais?
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Livro: A Hora dos Ruminantes [4/5]
Autor: José J. Veiga
Editora Difel

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

O azul é a cor mais quente


Eu vi o filme antes de ler o livro e foi uma das poucas vezes em que o filme me pareceu mais profundo.

Ler "Azul é a cor mais quente" me fez entender que era preciso mais tempo para esmiuçar o furacão de sentimentos que envolve a protagonista que se descobre homossexual em meio à turbulência dos seus 17 anos.

O filme deixou de fora o drama final descrito na Graphic Novel e, a meu ver, foi uma decisão acertada. Os desenhos são bons, as soluções gráficas encontradas para mostrar as alterações de humor são criativas, mas eu senti falta de uma fluidez narrativa. Há cortes muitos bruscos e passagens que eu fiquei com vontade de saber mais e que eram resumidas a um ou dois quadrinhos.

Enfim, é uma história bonita e triste, contada com muita sensibilidade e verossimilhança.
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Livro: Azul é a cor mais quente [3/5]
Autora: Julie Maroh
Editora Martins Fontes

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Daytripper



Silêncios absolutos nos acompanham ao término de "Daytripper", uma HQ de cunho reflexivo sobre a morte e, consequentemente, de como as nuances da vida estão atreladas à certeza desse fim inevitável.

Braz é um protagonista tipicamente brasileiro que escreve obituários e vive à sombra do pai que foi um escritor de sucesso. Por 10 capítulos acompanhamos possíveis finais para a sua história e a cada um deles nos surpreendemos pelo modo como as circunstâncias rascunham e definem quem somos.

Ler "Daytripper" num tempo em que olhar para trás parece ser tão importante quanto olhar para frente, foi uma experiência que ainda estou digerindo.

Um dos capítulos se passa exatamente no dia 01 de fevereiro que foi quando eu comecei a ler. Uma dessas coincidências e mistérios que não ouso destrinchar.

Enfim, estou ainda sob o efeito desses dez finais que me deixaram com uma lista de ponderações e esperanças sobre essa experiência que separa o nascimento da morte.

Uma narrativa, acima de tudo, questionadora. Os desenhos são incríveis, o texto é poesia pura e a edição está muito bem cuidada! Vale muito a pena.

Por enquanto, sei dizer mais nada, não!
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Livro: Daytripper [5/5]
Autores: Fábio Moon e Gabriel Bá
Editora: Panini Comics

Divórcio


O novo livro de Ricardo Lísias começa como um soco no estômago e acaba nos deixando perdidos nas fronteiras emaranhadas que separam realidade da ficção.

Nele, o escritor desfia toda a sua dor pelo fim de um casamento que ele imaginava feliz. Ao descobrir o diário da esposa, o protagonista atravessa a dor e a obsessão em dar ordem a sentimentos conflitantes.

"Morro só mais uma vez"

O livro tem uma escrita bem fluente e confesso que li quase de uma vez só em função dessa fluidez. No entanto, a incapacidade de distinguir os limites entre realidade e ficção - o autor é o próprio personagem e a descrição da elaboração do livro que temos em mãos é um dos jeitos que ele encontra para lidar com a dor da separação - me deixaram desconcertado nas partes finais.

O autor utiliza a metalinguagem para fazer jogos do tipo: "Não sei quantas pessoas vão ler 'Divórcio'. Provavelmente, um pouco mais que meus outros livros. Algumas vão gostar tanto que, no mesmo dia, acabarão procurando 'O céu dos suicidas' (primeiro livro dele). Em uma livraria, porém, o vendedor lamenta não encontrar um exemplar e diz que pode fazer uma encomenda. O leitor pensa por um instante e desiste".

Ou ainda: "Se minha ex-mulher não queria inspirar uma personagem, não deveria ter brincado com a minha vida. No estágio atual da ficção, é preciso que o esqueleto de um romance esteja inteiramente à vista. No meu caso, fizeram o favor de registrar parte do que aconteceu em um cartório".

Entende o que eu digo?

Como o livro é sobre dor, esse tanto de realidade talvez ajude a intensificá-la, mas nos capítulos finais ele faz estas descrições utilizando de um didatismo exacerbado que, a meu ver, parecem mais a conclusão de um tratado sobre superação.

No entanto, isso não faz o livro ruim. Pelo contrário, as identificações são imediatas e a escrita de Lísias é muito precisa sobre como é dolorido a perda de um grande amor. Lance a primeira pedra quem nunca sofreu pelo rompimento de um relacionamento ou se irritou quando percebeu que o mundo não pára diante da sua dor, por mais intensa que ela seja: "Desci até a plataforma chorando. Ninguém veio falar comigo. Ninguém me perguntou nada. Vou cair. Resolvo me encostar na parede. Minha vista continua escura, mas percebo que há muito gente ao meu redor. Ninguém fala comigo. Se eu chorar mais minha imagens vai ser captada pelas câmeras de segurança."

Dolorido assim e, ainda assim, bom de ler!

"Estou com medo de esquecer demais."
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Livro: Divórcio [3/5]
Autor: Ricardo Lísias
Editora: Alfaguara