sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Pela beleza dos começos


Eu que gosto dos começos, no meio da viagem para o décimo andar do meu prédio, abro o livro e encontro isso aqui:

"era o homem mais triste do mundo, como numa lenda, diziam dele as pessoas da terra, impressionadas com a sua expressão e com o modo como partia as pedras na cabeça ou abria bichos com os dentes tão caninos de fome.

era o homem mais triste do mundo, diziam, incapaz de fazer mal a alguém, apenas metendo dó, com olhos de precipício como se vazios para onde as pessoas e as coisas caíam em desamparo. mas era impossível não os fitarmos, fascinados por eles como ficávamos..."

O livro é "Nosso Reino" do Valter Hugo Mãe.
Quem me emprestou foi o Walderes.
A foto é da Mariana Leme. Achei aqui.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Na última parada


Um Degas enfeitava a última parada em Orizona. Junto dele, um pedido da moça do caixa: "Depois vocês voltam, tá?"

Foto: Wolney Fernandes

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Quando já se conhece a temperatura da água


Um dia, a gente acorda, olha pra frente e vê que o presente já é o futuro. E daí sente uma necessidade de renovar o contrato com seus desejos, sabe? Ou quem sabe rompê-lo, diante dessa certeza meio angustiante, de que o presente não está assim tão legal quanto você desejou lá no passado.

Já não são tantos os horizontes. Já se conhece a temperatura da água e o balanço do barco já não nos tira do prumo. Bom que não dá enjoo. Ao menos não nesse menino que, mesmo depois do recreio, vive rodopiando e acreditando que a brincadeira pode continuar na sala de aula.

Traçar novos rumos, no presente, parece mais difícil do que no passado. O coração, macio como a pluma da almofada do velho sofá, já está bordado com desenhos de antes. Em função disso, a maior vontade de todas é deixar a vida seguir seu rumo sem novos arranjos e arrumações. Deixar os pingos correrem em maratona para seus "i" enquanto se desfruta de brisa fresca.

Vento no rosto é bom, né? Escrevo tudo isso com uma certeza só: sejam quais forem os planos, quero sempre essa sensação pura de quando se tem sete anos de idade. Mesmo que a barriga já insista em desafiar o botão da calça e os pêlos do peito já estejam cada dia mais brancos.

Foto é do Pedro Fonseca. Peguei aqui.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

A Volta


Na passagem para Orizona/GO, o moço do guichê escreveu assim: Volta.

Tudo bem, eu volto!

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 8 de setembro de 2013

"O menino que carregava água na peneira"


Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
Era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre os orvalhos.

A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira
Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menina fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho, você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas peraltagens
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos.

[Manoel de Barros]

Imagem capturada aqui.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

"Esperame En El Cielo"


Meia tarde garimpando músicas pela internet. Um céu inteiro de boas canções.

01. Megalomania - David Lemaitre
02. I Need My Girl - The National
03. Changing of the Seasons - Two Door Cinema Club
04. Electricity - Orchestral Manoeuvres in the Dark
05. King and Lionheart - Of Monsters and Men
06. Tell Me a Tale - Michael Kiwanuka
07. Ballad of the Band - Felt
08. Já vou tarde - Phill Veras
09. Different Pulse - Asaf Avidan
10. Wrecking Ball - Miley Cyrus
11. Born Too Late - Dent May
12. Break it to You Gently - Camera Obscura
13. Weight - Mikal Cronin
14. Action Is My Middle Name - Morissey
15. Esperame En El Cielo - Mina

A foto eu encontrei aqui.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Ponto de continuação


Faltava uma esquina só. Na fome típica do trânsito do meio-dia, avistei a Kombi, parada, metade na rua, metade na calçada. O sinal fechou. Então eu pude ler no adesivo colado no vidro traseiro daquele veículo:

"Saudade do meu pai"

Nos minutos seguintes, me apropriei daquela saudade e pensei na ausência do meu próprio pai nesses vinte e dois anos desde a sua morte. Deu vontade de saber como seria uma conversa nossa, que irritações seriam derivadas de manias, minhas e dele, e se seus cabelos já estariam brancos. Dentro dessa vontade, descobri que sou forte nos outros e frágil em mim mesmo. Todas as vezes que tentei ir embora daquela saudade, não consegui.

Chorei um pouquinho só. Não pela impossibilidade de respostas, por incompreensão, mágoas ou desvios, mas pela vontade de colo.

O choro foi de saudade.

Tentei tirar uma foto, mas o sentimento colado na traseira da Kombi ficou ilegível diante da buzina que já gritava a pressa do sinal verde. Não me prolonguei. O choro foi curto, mas depois tive tempo de escrevê-lo. Aquela saudade foi apenas um ponto de continuação. Um pequeno milagre para entender que meu pai é a parte de mim mais resistente ao mundo.

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Respostas


Porque a falta de rumo também nos paralisa.

Porque cometer os mesmos erros é bobagem, mas a gente nunca se dá bem com os novos.

Porque gastamos uma grana que não tínhamos em livros e sobremesas.

Porque enquanto ensaboamos a batata da perna, revelações metafísicas nos assaltam.

Porque a beleza nos cerca e tomará conta de nós, se nós tivermos coragem.

Porque é na bagunça do quarto que se encontra nossa vocação.

Porque os olhos da Birdy são, ao mesmo tempo, oceano de tristeza e encantamento.

Porque é uma delícia acreditar, mesmo no escuro do cinema, que alguém vai gostar da gente por toda a vida, que o todo talento será recompensado e que teremos coragem de tacar a lagosta viva na panela com água fervendo.

Porque nunca é tarde demais para outra colher de doce de leite.

Imagem encontrada aqui

Inspira, expira e pira!


Ganhar dinheiro, ir pra academia. Checar e-mails e curtidas no facebook enquanto o sinal não abre. Ler os clássicos e as indicações dos amigos, saber cozinhar feito chef de programa de culinária, ter paz de espírito - encontrada na posição de lótus, é claro! Estar bem informado das consequências provocadas pela variação do dólar em Taiwan, ser popular no instagram e manter uma dieta com alimentos da moda que ninguém sabe bem de onde vem.

Tempo, tempo, tempo...

Vou conseguir. Eu sei que vou conseguir: Inspira um, expira dois e pira no três!

Imagem de Jonathan Lichtfeld