quinta-feira, 13 de junho de 2013

Utopias Transgressoras


A moça viu essa foto e comentou assim: "Me chamou atenção o cartaz "Pessoas Soltas", isso está espalhado por todo centro goiano... Depois de uma pesquisa, descobri que é do artista Oscar Fortunato. Só não entendo porque isso é arte, mas tudo bem..."

Tudo bem não entender porque isso é arte, afinal de contas, a obra de Oscar Fortunato está intimamente vinculada a práticas artísticas que não se sabem separadas da vida. E aqui, "vida" também se soletra com as nove letras da palavra r-e-a-l-i-d-a-d-e. 

Seu território é o cotidiano. No ritmo acelerado da cidade as intervenções do Oscar traçam deslocamentos sutis e experiências anônimas que deixam vestígios de uma arte avessa aos circuitos das instituições. E é assim porque seus múltiplos sentidos se cumprem no modo como as pessoas interagem com o movimento urbano. 

Basta apenas ter a atenção roubada, sem que se precise elaborar entendimentos sobre arte, para que a experiência artística se torne real. É assim que a transformação se opera, sutil e silenciosamente, e ainda assim, forte o suficiente para promover deslocamentos, reconhecimentos, pausas e instigar perguntas sobre a realidade e o que nela está posto. 

Dos cartazes que anunciam carnes exóticas do açougue dos Irmãos Staden aos adesivos que dão formas as mais variadas expressões tipicamente goianas - "Ê Goyaz véi!" - passeamos pela reutilização "desabusada" e crítica dos saberes, dos espaços e das linguagens de quem nasceu aqui no meio do Brasil. Essas astúcias formam uma rede de profanações poéticas que devolvem ao uso comum o que nem sempre está acessível a todos. O que sai da minha boca pode ser arte? Assim, os problemas da vida urbana são incorporados como valores artísticos e constituídos como uma prática ao mesmo tempo crítica e acessível. 

Desse tipo de arte todo mundo deveria entender, pois ela guarda sua singularidade e autonomia ao fundar uma nova compreensão de que somos nós também os responsáveis pela criação dos significados daquilo que vemos. Não é preciso que alguém diga o que é arte para que saibamos o que nos afeta, nos [co]move e indigna. Quando Oscar Fortunato borda cada canto da cidade com seus corações e provocações, propõe transbordamentos possíveis na forma como vemos e interagimos com nossa realidade. 

Uma arte com pronúncia goiana, que reside na fluidez entre o que se é, o que se faz e o que se vê. Por ela, somos convidados a olhar pra nós mesmos e entender que é real a possibilidade de interferir nos espaços da cidade, recriá-los à nossa maneira e transformá-los em ambientes mais propícios à vida que desejamos viver. Uma espécie de utopia transgressora que entre tantas incertezas, promove desejos eloquentes de mudança. No cartaz apenas duas palavras: "Pessoas Soltas", mas nas entrelinhas, inúmeras possibilidades.

Há de se ter mais "Pessoas Soltas" em cada esquina. Diferente de um "Jogo do Bicho", que os políticos sejam mais do que números impressos em cartazes e apostas incertas. Que os acordes dados pela "Orquestra Filarmônica de Mozarlândia" conduzam um despertar coletivo e efetivo da cultura em nosso Estado. E que a poesia explícita na profecia "Do Guapó visestes, ao Guapó voltarás" nos faça olhar para os lugares de onde viemos no desejo de tomar nossas próprias histórias pelas mãos. 

Rensga!

A foto é do Teo Neto. 
A obra do Oscar Fortunato você pode conhecer clicando aqui.