segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Na Mesma Toada




Em passos lentos, ali no meio da manhã, ela empreende uma caminhada diária e constante. Seu ir e vir é sempre pelo abrigo que a sombra do muro desenha no chão.

Da janela do meu quarto, meus olhos passeiam com ela naquela vontade de ajustar meus passos no mesmo ritmo, na mesma toada.

Fotos: Wolney Fernandes

domingo, 30 de dezembro de 2012

Respingos de Dezembro


01. No metrô de São Paulo, sentada no canto da escada, a moça chora compulsivamente falando ao telefone. Meu desejo é retornar e oferecer o ombro para ela chorar.

02. Na barraca de frutas, o moço segura o bebê e a moça faz toda a transação econômica.

03. Um senhor vestido com camisa verde limão reclama e não se conforma por ter que esperar na longa fila do banco. Sai xingando alto e se recusa a ficar ali como todo mundo. Dez minutos depois ele retorna calminho, retira a senha e se posiciona silenciosamente no final da fila. Fico com vontade de perguntar o que aconteceu lá fora nesse curto intervalo de tempo.

04. Um grupo de garis se reúne embaixo da mangueira no meio da avenida tentando derrubar mangas a pedradas. Sinto vontade de me juntar a eles.

05. Olho pela janela bem cedinho e acompanho o limpador de piscina terminar o trabalho no condomínio ao lado. Ao final, ele deposita a rede no chão, tira os chinelos e, furtivamente, molha os pés na água.

Foto: Wolney Fernandes

No Escurinho do Cinema


Setenta e três sessões de cinema fizeram de 2012 uma temporada com menos filmes no meu currículo de cinéfilo [no ano passado foram 95]. No entanto, os deslumbramentos continuam tão intensos como nunca. Abaixo minhas escolhas em uma lista de filmes que mexeram comigo nesse ano.

Os melhores filmes do ano:
1. Argo
2. Drive
3. Pina
4. Tão Forte, Tão Perto
5. Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Os melhores filmes que ninguém viu:
1. No
2. As Canções
3. 360
4. Riscado
5. Sete Dias com Marilyn

Os melhores filmes que assisti em casa:
1. Medianeras
2. A Malvada
3. Toda forma de Amor
4. Incêndios
5. Pecados da Carne

Constrangimentos do ano:
1. As piadas entre os heróis de "Os Vingadores"
2. A charrete puxada por coelhos em "O Hobbit"
3. O final com número de musical indiano do filme "Espelho, Espelho meu"
4. O rosto digital da filha de Edward e Bella em "Amanhecer - Parte II"
5. A maquiagem risível dos fantasmas em "A Entidade"

Cenas inesquecíveis:
1. A primeira cena de "Histórias Cruzadas"
2. A mãe que precisa esconder a notícia de que o filho está morto em "E agora, onde vamos?"
3. Todas as que aparecem a Tilda Swinton em "Precisamos Falar sobre Kevin"
4. O monólogo proferido por Anthony Hopkins na metade de "360"
5. A cena final de "A Separação"

Os cartazes mais incríveis:
1. As Canções
2. No
3. Shame
4. Sete Dias com Marilyn
5. Para Roma com Amor

Imagens de cair o queixo:
1. O oceano de belezas de "As Aventuras de Pi"
2. A sequência inicial com a vaca caindo do céu em "Um Conto Chinês"
3. As imagens em 3D dos filmes de Georges Méliès em "A Invenção de Hugo Cabret"
4. A invasão da embaixada americana em "Argo"
5. O estádio de Gotham sendo destruído ao som do hino nacional dos EUA em "Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge"

Personagens inesquecíveis:
1. O Driss de Omar Sy em "Intocáveis"
2. A Lisbeth Salander de Rooney Mara em "Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres
3. O Motorista sem nome de Ryan Gosling em "Drive"
4. O Vilão de Javier Bardem em "007 - Operação Skyfall"
5. A Margareth Tatcher idosa de Meryl Streep em "A Dama de Ferro"

Os filmes que me fizeram escrever:
01. Toda Forma de Amor
02. Abril Despedaçado
03. Argo
04. E agora, aonde vamos?
05. As Aventuras de Pi 

Imagem capturada aqui.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Pelo sabor do próprio desejo


Oi Deus, boa noite!
Feliz Natal atrasado pro Senhor!

Eu sei que perfeita é a Sua vontade, que sábios são Seus caminhos e que o Senhor tem lá seus motivos, todos eles, muito além da minha compreensão. Não vou portanto, nem me revoltar, nem praguejar contra minha sorte, nem mesmo questionar o calor que tem feito nessa terra.

Estou escrevendo para falar um pouco dessa nossa relação que vem se arrastando já há um bom tempo, né? O Senhor sabe que tentei amá-lo de várias formas durante anos. Me esforcei muitíssimo, mas foi ficando cada vez mais complicado. Acho que não é pecado não amar o pai, é? Não amar a mãe até pode ser! Digo isso não porque não acredite no Senhor. Apenas fomos ficando indiferentes um ao outro e, na medida que o tempo passa, a gente se afasta.

Receio que essa distância se torne insuportável um dia, e de velhos amigos a gente passe a meros desconhecidos. Cada um para o seu lado, sem a menor perspectiva de que um dia nossos caminhos se cruzem. Quem sabe ali pertinho da morte a gente partilhe uma falsa saudade? Pode até ser, mas até lá vou me virando com minha falta de jeito com a vida.

Nesse tempo, distantes, vou criando coragem para me confessar um homem de intenções gargalhantes, tentando abandonar essa corda bamba que tem orientado meu caminhar diante de suas vontades e desígnios. Espero que o Senhor entenda que eu preciso cada vez mais levar em consideração meus próprios desejos.

Eu sei que o Senhor não fará nada para impedir isso e agradeço. Sobreviverei, eu sei, pois já faz um bom tempo que minha fome não é mais saciada com os frágeis improvisos que a sua Igreja, pateticamente, tenta me enfiar goela abaixo. Pão sem sabor já não quero mais!

Prefiro dividir essa vontade de comer com gente que sorri sem esperar nada em troca e me lambuzar com os tantos sabores guardados e já experimentados por aí: os suspiros coloridos da venda do Seu Adelino, o bolinho de milho da Vó D'Alena, os biscoitos gigantes do Seu Bandarra, os abacates do Vó Elias ou o sorvete feito de suco e vendido na praça em dia de festa.

Assim, sigo daqui!
Com a admiração de sempre!
Wolney

Foto de Martin Parr. Peguei aqui.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

As Aventuras de Pi


No meio do oceano em um barco à deriva, a convivência entre um jovem e um tigre desfia uma série de questionamentos sobre a natureza das duas criaturas e sobre o papel da fé na sobrevivência humana. É assim que o filme "As Aventuras de Pi" se apresenta. Corajoso do ponto de vista narrativo, o enredo poderia descambar ladeira abaixo em direções enfadonhas e cansativas não fosse a maestria do diretor Ang Lee que concebe o filme não como uma aventura, mas como uma narrativa de memórias carregadas pelas tintas do afeto e da imaginação.

As imagens incríveis e metafóricas que cercam essa história conseguem dançar no mesmo compasso das questões que fazem um sem-número de significados saltarem da tela direto para o nosso colo. Tocando no terreno movediço e sagrado dos dogmas religiosos, Pi, um menino indiano, vai plantando em nós, perguntas e afirmações que conseguem tirar o sossego:

"Nenhum de nós conhece Deus até que alguém nos apresente a um d'Eles."

"Religião é escuridão."

"A fé é uma sala com muitos quartos e há dúvida em todos eles."

Movido, ora pela razão incentivada pelo pai, ora pela religiosidade enaltecida pela mãe, Pi consegue transitar entre o hinduísmo, o cristianismo e o judaísmo sem que nenhuma dessas religiões funcione como amarra que o impeça de questionar o mundo e o sentido da vida.

"Se aconteceu, aconteceu! Nem tudo precisa de significado."

"Talvez a vida seja um processo de abrir mão daquilo que amamos."

Depois de acompanhar as peripécias de sobrevivência de Pi e do tigre Richard Parker, cabe a nós, espectadores, decidirmos se aceitamos o que nos foi contado ou não. Dessa forma, o filme não se fecha,  pelo contrário, abre-se em direções variadas reforçando a noção de liberdade que deveria permear nossas escolhas. Mesmo aquelas que, na maioria das vezes, nos são impostas pela família, pela Igreja ou pela cultura. Afinal, embora nos falte coragem para admitir, a liberdade no filme, assim como na vida, é o que desenha os contornos da palavra sobrevivência.

sábado, 22 de dezembro de 2012

O Dia Depois do Fim


O dia depois do fim não me parece tão caótico. Só é decepcionante descobrir que a vida segue sem se importar se eu ainda faço parte dela ou não. Morrer é tão simples que deveria ser proibido lamúrias estendidas e vaidades inventadas em torno desse fato. Na morte, nada faz diferença.

A dor logo vai embora e, se a lembrança volta com frequência nos primeiros meses, não demora muito até ela também começar a ficar arredia e só aparecer quando bem desejar. Afinal, lembrança é borboleta que depois de um breve pouso nos escapa o tempo inteiro.

No dia depois do fim não há arrependimento capaz de consertar os pecados cometidos. A boa notícia é que também não há nenhum tribunal do outro lado para me cobrar o conserto. Tirando o céu e o inferno detrás da porta, sobra um vazio que, mesmo infinito, não cabe nenhum dos meus amores. Nem mesmo os materiais, quem dirá as pessoas com as quais eu troquei afetos.

Lamento pelos meus livros e por não poder dizer ao meu pai todos os impropérios que eu desejei um dia. Aqui, só solidão e silêncio. Qualquer esboço de sorriso é tentativa de rir de mim mesmo pelas culpas que carreguei vida afora - não as minhas próprias, mas as alheias que foram aquelas que mais pesaram sobre meus ombros.

Daqui pra frente, só mistério e esquecimento. Mesmo assim, nesse dia depois do fim, vago à procura de brinquedos e memórias.

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Nos embalos de 2012


Sobre o prazer de fazer listas eu já disse aqui. Então já posso ir direto ao ponto: este é o momento mais gostoso do ano, pois adoro passear pelas músicas que tive contato em 2012 (nem todas são produções desse ano) para apresentar uma compilação que não serve para absolutamente nada, mas espalha prazeres em noites de quinta. Aperte o play!

As músicas internacionais de todas as playlists do ano:
1. 4 Broken Hearts - Norah Jones
2. No Light, No Light - Florence + The Machine
3. Edge of Evolution - Alanis Morissette
4. Sovereign Light Cafe - Keane
5. Somebody That I Used To Know - Gotye ft. Kimbra

As músicas nacionais de todas as playlists do ano:
1. Ok - Tulipa Ruiz
2. Perto do fim - Thiago Pethit e Malu Magalhães
3. Falando Sério - Silva
4. Baile de Ilusão - Céu
5. Carta de Amor - Maria Bethânia

As músicas de filmes:
1. Nightcall - Kavinsky & Lovefoxxx (Do filme "Drive")
2. Scent of Death - Alexandre Desplat (Do filme "Argo")
3. Silver Lining - Jessie J. (Do filme "O Lado Bom da Vida")
4. Ghosts - James Vincent Mcmorrow (Do filme "Amanhecer - Parte 2")
5. Umbrellas - Abel Korzeniowski (Do filme "W.E")

Os refrãos mais grudentos:
1. Let's Have a Kiki - Scissor Sisters
2. Army of Me - Christina Aguilera
3. Xirley - Gaby Amarantos
4. Beautiful Killer - Madonna
5. Try - Pink

As músicas que me fizeram dançar pela casa afora:
1. I'm Just Me - Diamond Rings
2. We Are Young - Fun ft. Janelle Monáe
3. How To Be a Heartbreaker - Marina and the Diamonds
4. Roupa do Corpo - Filipe Catto
5. Good for You - Icona Pop

As músicas que ninguém conhece:
1. Lazuli - Beach House
2. This Girls Prepared for War - Belle
3. Waves - Blondfire
4. Union - Deptford Goth
5. Float - Ko Ko

Os discos que ouvi do princípio ao fim
1. Birdy - Birdy
2. Sun - Cat Power
3. Caravana Sereia Bloom - Céu
4. Anar - Marketa Irglova
5. Trilha Sonora do filme "Intocáveis"

Os clipes marcantes:
1. It's Only Life - The Shins
2. True Romance - Citizens
3. Kiss - Melanie Laurent
4. Union - Deptford Goth
5. Pra Sonhar - Marcelo Jeneci
Bônus - Here With Me - The Killers

Imagem capturada aqui.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

E agora, aonde vamos?


O filme é sobre o conflito religioso no interior do Oriente Médio e mostra as cicatrizes deixadas por anos de embates sangrentos motivados por discordâncias de credo. No entanto, a trama de "E agora, aonde vamos?" (Et maintenant on ya o ù?, 2011) é tão verdadeira que a identificação se estabelece já na primeira cena, pois a insanidade de conflitos entre irmãos e vizinhos é passível de ocorrer em qualquer lugar ao redor do mundo.

A diretora Nadine Labaki introduz humor e ironia em meio ao pano de fundo de tensão no qual se desenrola a história e permite a nós, espectadores ocidentais, uma visão menos estereotipada daquele povo. Em uma pequena vila isolada vivem pacificamente duas comunidades: uma cristã e outra muçulmana. Quando conflitos religiosos estouram no país, as mulheres da vila sentem que a paz está ameaçada e passam a sabotar a entrada de informações sobre a guerra para distrair os homens de começarem sua própria luta.

Para não verem seus filhos e maridos mortos por algo que não acreditam valer a pena, as mulheres se unem em planos mirabolantes e, juntas, funcionam como uma coluna vertebral da aldeia. É bonito de ver os esforços de mães e esposas para diminuir a população do cemitério local. E tudo feito com muito bom humor. Desde religiosas fervorosas simulando falsa conexão com uma santa até a fabricação em massa de bolos de haxixe sem que em nenhum momento o filme soe ofensivo ou emita julgamento sobre nenhuma das crenças.

Dizer mais talvez estrague as surpresas e também as dores espalhadas por toda a narrativa. Dramas e alegrias vem como ondas seguidas uma após a outra em um movimento muito parecido ao que a vida faz. Ao final, a mensagem que fica é aquela que já está explícita no título - se vivemos divididos e só vemos diferenças, afinal, aonde vamos?

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Dezessete de Dezembro de 2012 - segunda


Meu desejo era inaugurar nessas linhas uma maneira de não me repetir, mas fazer o que se sou um amontoado de repetições em ritos que adoro saber de cor? Em dezembro de 2011, comecei a colecionar os dias dezessetes de cada mês fazendo um diário que completa um ano hoje.

No final do dia, refiz o mesmo trajeto que inaugurou esta sessão em 2011. Caminhei pelas ruas do Centro com a sensação de que encontraria comigo mesmo: barba por fazer, cabelo mais curto, camiseta pintada a mão, olhar perdido em absurdos cotidianos. Abraçaríamo-nos em silenciosa compreensão e, em seguida, eu me explicaria o quanto é desnecessário o sofrimento em vão.

Depois de muitos dizeres, me encheria de afagos para que não fosse preciso dizer mais nada. A pele sendo a memória do corpo desenharia cicatrizes e sossegos que o Wolney de antes não ousaria experimentar.

E assim, de mãos dadas comigo mesmo, sem corromper a velha prosa sobre o tempo ou a falta dele, caminharíamos pela rua vasculhando perfumes conhecidos e aleatoriedades horizontais.

Afinal, reencontrar-se é uma das formas de seguir em frente.

Imagem: Wolney Fernandes