quinta-feira, 26 de julho de 2012

Os abacates de Vô Elias


Não sei dizer aconchegos do colo de vô Elias. Ainda menino, pedia a bença e ele respondia sem fazer afagos. Da sua imagem, os olhos claros eu sempre quis herdar. Da sua serenidade, meu pai se encarregava de noticiar.

Minha orfandade trouxe pactos silenciosos entre meu avô e eu. Desde então, sua presença se fez diálogo, afago e carinho. Vô Elias chegando lá em casa com os braços cheios de abacates para os netos, órfãos de pai, ainda é uma das memórias que mais aquecem meu coração.

Imagem: Wolney Fernandes

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Diário de um Coração Vazio - Último Dia


Ficam para trás a dura poesia concreta de tuas esquinas, a deselegância discreta de seu silêncio. Nada de leveza, nada de amor sincero, nada do azul que circunda um bocado de beleza. Neste último dia, só há os cacos de um coração vazio e ateu.

É assim que deve ser, e assim será. 

Definitivamente.



Imagem: Wolney Fernandes

quarta-feira, 18 de julho de 2012

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Alma Cartesiana


A fila do almoço se estendia para além da barraca montada na casa do festeiro. Para fugir do sol fastigante do meio-dia, o 'rabo' da fila interrompia seu desenho retilíneo e fazia um balão na tentativa de aproveitar a beirinha de sombra que ainda restava naquele lugar.

De vestido rosa e mãos na cintura a mulher chegou bradando que não seria possível entrar em fila tão desorganizada. Toda empertigada, ela se recusava a ir pro final e insistia em dizer que só entraria ali quando aquela 'barriga' de fila se alinhasse. Não houve explicação que a acalmasse e, cumprindo seu protesto, só se posicionou quando a lombada se desfez em função da movimentação.

Diante da cena, minha alma cartesiana suspirou de alegria.

Foto: Wolney Fernandes

Diário de um Coração Vazio - Décimo Sétimo Dia


"Os impactos de amor não são poesia."*

Cada pedaço de dor parece recitar o mesmo verso. Como a gente faz pouca falta! Se todo amor termina com um rasgo, é hora de começar a arrancar as páginas deste que ainda insiste em embrulhar o coração com dores dilacerantes. É hora de tirar o gosto ruim por ver como era frouxo o nó.

"Poesia são: coxa, fúria, cabala."*

Agonizante, depois de um fuzilamento de silêncios e sumiços, o coração precisa de aspirações noturnas e flertes diurnos para respirar. É isso! Mala pronta, corpo desprendido e versos de Drummond envenenados pelas provocações de Madonna e Ana Cristina Cesar.

"Preciso sair da outra metade para ceder lugar ao iminente ato de foder."**

O amor vai embora com alguns orgasmos, mas deixa um cheiro forte de sexo. Pernas abertas e armas em riste irão preencher esse vazio, pois existem muitos jeitos de viver a vida. Falo de uma vida onde não há espaço entre um prazer e outro e onde a felicidade não é lugar nem instante, mas um movimento libidinoso que se faz em busca do gozo perfeito.

Te cuida, matador de corações!
"You're a beautiful killer 
But you'll never be Alain Delon"***

Imagem: Wolney Fernandes
[*] Versos de Drummond

[**] Versos de Ana Cristina Cesar
[***] Versos de Madonna

Sentidos de um fim


Por alguma razão inexplicável, as leituras desses dias tem girado em torno de finais.

01. Ô fim do cem, fim... - Paulo Marques de Oliveira
02. A Última Madrugada - João Paulo Cuenca
03. Por isso a gente acabou - Daniel Handler
04. Um Homem Livre - Jean-Pierre Le Bouler
05. Morte aos Papagaios - Gustavo Piqueira
06. O Sentido de um Fim - Julian Barnes

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Diário de um Coração Vazio - Quarto Dia


No meio dos dias sem cor, inadvertidamente acordo sabendo que tudo será convertido numa linguagem diferente, permeado de saudade boa e melancolia terna. As horas mostrarão que, mesmo pesado, o coração conseguirá reter a leveza de lembranças doces.  Mesmo fragmentado conseguirá não mais depender do coração alheio.

Nestes dias de solidão monstra, é só ninar um pouco as lembranças para nunca esquecer do tempo brilhante que passou e do tempo que se arma ali na frente.

Inadvertidamente, estas certezas amanheceram comigo, mas ninguém me disse que seria tão difícil dormir com elas. 

"Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisa tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão."

Notações do dia 03/07/2012
Imagem: Wolney Fernandes
Versos de Drummond 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Debaixo d'água

você.
os peixes.
o vazio preenchido.

debaixo d'água, se formando como um feto
- serenoconfortávelamadocompleto -
sem chão, sem teto, sem contato com o ar.
mas tinha que respirar.*

Delicadamente, a Camila Pereira me enviou, de presente, os textos e a imagem acima. Por tanta beleza, não consegui guardar só pra mim.

Imagem: Francesco Clemente
[*] Citação da música "debaixo d'água" de Arnaldo Antunes

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Diário de um Coração Vazio - Segundo Dia


Silêncio...

"Cantiga de amor sem eira
nem beira"

Anotações do dia 01/07/2012
Imagem: Wolney Fernandes
Versos de Drummond 

Além do Espelho


Não gosto de escrever em dias em que me sinto estranho em relação ao resto do mundo. Parece carta de reclamação de um produto com defeito ou serviço ruim. Em dias assim, a rotina de casa para o trabalho só é interrompida por uma sessão de cinema e as músicas escolhidas pela melancolia composta em cada acorde lembram sonhos de aventura sempre adiados.

Como Alice, vivo querendo enxergar além do espelho. Vivo tentando seguir algum coelho apressado que me inspire curiosidade e me tire da inércia deste jardim seguro. Eu quero navegar, mas me fecho na falta de coragem de deixar o cais.

Imagem sem créditos.
Quem souber a autoria é só dizer!

domingo, 8 de julho de 2012

Diário de um Coração Vazio - Sexto Dia


"Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor."

Fui emoldurar uma gravura e derramei uma caixa cheia de tachinhas pelo quarto inteiro. Recolhi uma por uma de um jeito apressado. Isso quer dizer que a qualquer momento um desses preguinhos que certamente ficou perdido por aí vai entrar no meu pé, percorrer todas as minhas artérias até chegar ao meu coração e eu vou morrer.
Sem drama.
Sem Drummond. 

Anotações do dia 05/07/2012
Imagem: Wolney Fernandes
Versos de Drummond

Última vez


Da soleira da porta enxergo "seu" Aquino descer a ladeira arrastando os pés pela rua enquanto penso constrangido que minha memória já não se ocupava mais dele. Porém, bastou uma isca de olhar para que uma enxurrada de lembranças saltassem à vista.

Talvez ele já tenha nascido idoso. Eu era menino e ele já tinha rugas expressivas emoldurando os olhos claros. Na cabeça, chapéu de feltro marron. Na calça de linho, a barra da camisa clara se esconde e a manga abotoada no punho cobre seus braços longilíneos. O bigode fino é mantido sempre bem aparado e do cabelo curto e grisalho só se enxerga um restinho. Viajante do tempo, sou capaz de jurar que ele veio direto dos anos 30 para o século XXI sem nenhuma escala.

Imagino que seus 88 anos só apareçam refletidos no caminhar miúdo de agora, sem a desenvoltura ligeira que meus olhos de menino fisgaram no passado. Ele dobra a esquina pé ante pé e some das minhas vistas sem que eu me lembre de fotografá-lo.

Penso que talvez essa seja a última vez que o vejo.

Imagem: Modelo Vermelho de René Magritte

sábado, 7 de julho de 2012

Diário de um Coração Vazio - Primeiro Dia


"De novo aqui, miúdo território civil,
sem sonhos."

O primeiro é o pior dos dias. O pensamento navega em looping e o coração, partido, se recusa a derramar realidades que ele cultiva. Dói descobrir que o amor não redime no final. Fere perceber que talvez a redenção completa não aconteça.

A maturidade, tão celebrada em frases de efeito, é a primeira a fugir do peito. Ficam para trás a poesia concreta dos toques, a deselegância discreta em saber onde o prazer reside, nada do branco que circunda um bocado de beleza.

"Não senti sua falta." é a frase que atravessa as artérias feito adaga fria e cortante.

O coração sangra sem esperança. Talvez felicidade seja uma vida anestesiante, sem muitos arroubos. Talvez...

"É sempre no passado aquele orgasmo, 
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.
E sempre no meu sempre a mesma ausência."

Anotações do dia 30/06/2012
Imagem: Wolney Fernandes
Versos de Drummond

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Dia de Frida


"Não os culpo por gostarem de Frida, porque eu também gosto dela, mais do que qualquer outra coisa. Tu principal sapo-rana, Diego."

Imagem capturada aqui
Tem mais Frida aqui também.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Diário de um Coração Vazio - Quinto Dia


"Estou solto no mundo largo.
Lúcido cavalo
com substância de anjo
circula através de mim."

Cinco dias depois e meu coração, ilhado, ainda não consegue preencher esses espaços vazios que se abrem dentro dos silêncios, das condenações pregressas. Penso no celular que escorrega pelos dedos esperando a ligação que não vem e viro para o lado precisando acreditar que é melhor o silêncio do que enfrentar a finitude alheia. Lembrar de tanto sol que havia ajuda a atravessar estes dias de esforço inútil acordando antes do próprio sol nascer.

"Sou varado pela noite, atravesso os lagos frios,
absorvo epopéia e carne,
bebo tudo,
desfaço tudo,
torno a criar, a esquecer-me:
durmo agora, recomeço ontem"

Imagem: Wolney Fernandes
Versos de Drummond

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Diário de um Coração Vazio - Terceiro Dia


"Não cantarei amores que não tenho.
Minha matéria é o nada."

Coração abandonado na sexta só tem disposição para chorar no final de semana que segue. Não sei se é por não ser a primeira nem a segunda ou se é pela resignação de saber que não será a última vez.

"O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua."

É bom porque na segunda-feira dá pra fazer muitas coisas sem que o coração atrapalhe a rotina. É ruim porque parece que sempre falta alguma coisa.

"De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos.
Ficou um pouco de tudo." 

Imagem: Wolney Fernandes
Versos de Drummond.