segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Na Mesma Toada




Em passos lentos, ali no meio da manhã, ela empreende uma caminhada diária e constante. Seu ir e vir é sempre pelo abrigo que a sombra do muro desenha no chão.

Da janela do meu quarto, meus olhos passeiam com ela naquela vontade de ajustar meus passos no mesmo ritmo, na mesma toada.

Fotos: Wolney Fernandes

domingo, 30 de dezembro de 2012

Respingos de Dezembro


01. No metrô de São Paulo, sentada no canto da escada, a moça chora compulsivamente falando ao telefone. Meu desejo é retornar e oferecer o ombro para ela chorar.

02. Na barraca de frutas, o moço segura o bebê e a moça faz toda a transação econômica.

03. Um senhor vestido com camisa verde limão reclama e não se conforma por ter que esperar na longa fila do banco. Sai xingando alto e se recusa a ficar ali como todo mundo. Dez minutos depois ele retorna calminho, retira a senha e se posiciona silenciosamente no final da fila. Fico com vontade de perguntar o que aconteceu lá fora nesse curto intervalo de tempo.

04. Um grupo de garis se reúne embaixo da mangueira no meio da avenida tentando derrubar mangas a pedradas. Sinto vontade de me juntar a eles.

05. Olho pela janela bem cedinho e acompanho o limpador de piscina terminar o trabalho no condomínio ao lado. Ao final, ele deposita a rede no chão, tira os chinelos e, furtivamente, molha os pés na água.

Foto: Wolney Fernandes

No Escurinho do Cinema


Setenta e três sessões de cinema fizeram de 2012 uma temporada com menos filmes no meu currículo de cinéfilo [no ano passado foram 95]. No entanto, os deslumbramentos continuam tão intensos como nunca. Abaixo minhas escolhas em uma lista de filmes que mexeram comigo nesse ano.

Os melhores filmes do ano:
1. Argo
2. Drive
3. Pina
4. Tão Forte, Tão Perto
5. Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Os melhores filmes que ninguém viu:
1. No
2. As Canções
3. 360
4. Riscado
5. Sete Dias com Marilyn

Os melhores filmes que assisti em casa:
1. Medianeras
2. A Malvada
3. Toda forma de Amor
4. Incêndios
5. Pecados da Carne

Constrangimentos do ano:
1. As piadas entre os heróis de "Os Vingadores"
2. A charrete puxada por coelhos em "O Hobbit"
3. O final com número de musical indiano do filme "Espelho, Espelho meu"
4. O rosto digital da filha de Edward e Bella em "Amanhecer - Parte II"
5. A maquiagem risível dos fantasmas em "A Entidade"

Cenas inesquecíveis:
1. A primeira cena de "Histórias Cruzadas"
2. A mãe que precisa esconder a notícia de que o filho está morto em "E agora, onde vamos?"
3. Todas as que aparecem a Tilda Swinton em "Precisamos Falar sobre Kevin"
4. O monólogo proferido por Anthony Hopkins na metade de "360"
5. A cena final de "A Separação"

Os cartazes mais incríveis:
1. As Canções
2. No
3. Shame
4. Sete Dias com Marilyn
5. Para Roma com Amor

Imagens de cair o queixo:
1. O oceano de belezas de "As Aventuras de Pi"
2. A sequência inicial com a vaca caindo do céu em "Um Conto Chinês"
3. As imagens em 3D dos filmes de Georges Méliès em "A Invenção de Hugo Cabret"
4. A invasão da embaixada americana em "Argo"
5. O estádio de Gotham sendo destruído ao som do hino nacional dos EUA em "Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge"

Personagens inesquecíveis:
1. O Driss de Omar Sy em "Intocáveis"
2. A Lisbeth Salander de Rooney Mara em "Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres
3. O Motorista sem nome de Ryan Gosling em "Drive"
4. O Vilão de Javier Bardem em "007 - Operação Skyfall"
5. A Margareth Tatcher idosa de Meryl Streep em "A Dama de Ferro"

Os filmes que me fizeram escrever:
01. Toda Forma de Amor
02. Abril Despedaçado
03. Argo
04. E agora, aonde vamos?
05. As Aventuras de Pi 

Imagem capturada aqui.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Pelo sabor do próprio desejo


Oi Deus, boa noite!
Feliz Natal atrasado pro Senhor!

Eu sei que perfeita é a Sua vontade, que sábios são Seus caminhos e que o Senhor tem lá seus motivos, todos eles, muito além da minha compreensão. Não vou portanto, nem me revoltar, nem praguejar contra minha sorte, nem mesmo questionar o calor que tem feito nessa terra.

Estou escrevendo para falar um pouco dessa nossa relação que vem se arrastando já há um bom tempo, né? O Senhor sabe que tentei amá-lo de várias formas durante anos. Me esforcei muitíssimo, mas foi ficando cada vez mais complicado. Acho que não é pecado não amar o pai, é? Não amar a mãe até pode ser! Digo isso não porque não acredite no Senhor. Apenas fomos ficando indiferentes um ao outro e, na medida que o tempo passa, a gente se afasta.

Receio que essa distância se torne insuportável um dia, e de velhos amigos a gente passe a meros desconhecidos. Cada um para o seu lado, sem a menor perspectiva de que um dia nossos caminhos se cruzem. Quem sabe ali pertinho da morte a gente partilhe uma falsa saudade? Pode até ser, mas até lá vou me virando com minha falta de jeito com a vida.

Nesse tempo, distantes, vou criando coragem para me confessar um homem de intenções gargalhantes, tentando abandonar essa corda bamba que tem orientado meu caminhar diante de suas vontades e desígnios. Espero que o Senhor entenda que eu preciso cada vez mais levar em consideração meus próprios desejos.

Eu sei que o Senhor não fará nada para impedir isso e agradeço. Sobreviverei, eu sei, pois já faz um bom tempo que minha fome não é mais saciada com os frágeis improvisos que a sua Igreja, pateticamente, tenta me enfiar goela abaixo. Pão sem sabor já não quero mais!

Prefiro dividir essa vontade de comer com gente que sorri sem esperar nada em troca e me lambuzar com os tantos sabores guardados e já experimentados por aí: os suspiros coloridos da venda do Seu Adelino, o bolinho de milho da Vó D'Alena, os biscoitos gigantes do Seu Bandarra, os abacates do Vó Elias ou o sorvete feito de suco e vendido na praça em dia de festa.

Assim, sigo daqui!
Com a admiração de sempre!
Wolney

Foto de Martin Parr. Peguei aqui.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

As Aventuras de Pi


No meio do oceano em um barco à deriva, a convivência entre um jovem e um tigre desfia uma série de questionamentos sobre a natureza das duas criaturas e sobre o papel da fé na sobrevivência humana. É assim que o filme "As Aventuras de Pi" se apresenta. Corajoso do ponto de vista narrativo, o enredo poderia descambar ladeira abaixo em direções enfadonhas e cansativas não fosse a maestria do diretor Ang Lee que concebe o filme não como uma aventura, mas como uma narrativa de memórias carregadas pelas tintas do afeto e da imaginação.

As imagens incríveis e metafóricas que cercam essa história conseguem dançar no mesmo compasso das questões que fazem um sem-número de significados saltarem da tela direto para o nosso colo. Tocando no terreno movediço e sagrado dos dogmas religiosos, Pi, um menino indiano, vai plantando em nós, perguntas e afirmações que conseguem tirar o sossego:

"Nenhum de nós conhece Deus até que alguém nos apresente a um d'Eles."

"Religião é escuridão."

"A fé é uma sala com muitos quartos e há dúvida em todos eles."

Movido, ora pela razão incentivada pelo pai, ora pela religiosidade enaltecida pela mãe, Pi consegue transitar entre o hinduísmo, o cristianismo e o judaísmo sem que nenhuma dessas religiões funcione como amarra que o impeça de questionar o mundo e o sentido da vida.

"Se aconteceu, aconteceu! Nem tudo precisa de significado."

"Talvez a vida seja um processo de abrir mão daquilo que amamos."

Depois de acompanhar as peripécias de sobrevivência de Pi e do tigre Richard Parker, cabe a nós, espectadores, decidirmos se aceitamos o que nos foi contado ou não. Dessa forma, o filme não se fecha,  pelo contrário, abre-se em direções variadas reforçando a noção de liberdade que deveria permear nossas escolhas. Mesmo aquelas que, na maioria das vezes, nos são impostas pela família, pela Igreja ou pela cultura. Afinal, embora nos falte coragem para admitir, a liberdade no filme, assim como na vida, é o que desenha os contornos da palavra sobrevivência.

sábado, 22 de dezembro de 2012

O Dia Depois do Fim


O dia depois do fim não me parece tão caótico. Só é decepcionante descobrir que a vida segue sem se importar se eu ainda faço parte dela ou não. Morrer é tão simples que deveria ser proibido lamúrias estendidas e vaidades inventadas em torno desse fato. Na morte, nada faz diferença.

A dor logo vai embora e, se a lembrança volta com frequência nos primeiros meses, não demora muito até ela também começar a ficar arredia e só aparecer quando bem desejar. Afinal, lembrança é borboleta que depois de um breve pouso nos escapa o tempo inteiro.

No dia depois do fim não há arrependimento capaz de consertar os pecados cometidos. A boa notícia é que também não há nenhum tribunal do outro lado para me cobrar o conserto. Tirando o céu e o inferno detrás da porta, sobra um vazio que, mesmo infinito, não cabe nenhum dos meus amores. Nem mesmo os materiais, quem dirá as pessoas com as quais eu troquei afetos.

Lamento pelos meus livros e por não poder dizer ao meu pai todos os impropérios que eu desejei um dia. Aqui, só solidão e silêncio. Qualquer esboço de sorriso é tentativa de rir de mim mesmo pelas culpas que carreguei vida afora - não as minhas próprias, mas as alheias que foram aquelas que mais pesaram sobre meus ombros.

Daqui pra frente, só mistério e esquecimento. Mesmo assim, nesse dia depois do fim, vago à procura de brinquedos e memórias.

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Nos embalos de 2012


Sobre o prazer de fazer listas eu já disse aqui. Então já posso ir direto ao ponto: este é o momento mais gostoso do ano, pois adoro passear pelas músicas que tive contato em 2012 (nem todas são produções desse ano) para apresentar uma compilação que não serve para absolutamente nada, mas espalha prazeres em noites de quinta. Aperte o play!

As músicas internacionais de todas as playlists do ano:
1. 4 Broken Hearts - Norah Jones
2. No Light, No Light - Florence + The Machine
3. Edge of Evolution - Alanis Morissette
4. Sovereign Light Cafe - Keane
5. Somebody That I Used To Know - Gotye ft. Kimbra

As músicas nacionais de todas as playlists do ano:
1. Ok - Tulipa Ruiz
2. Perto do fim - Thiago Pethit e Malu Magalhães
3. Falando Sério - Silva
4. Baile de Ilusão - Céu
5. Carta de Amor - Maria Bethânia

As músicas de filmes:
1. Nightcall - Kavinsky & Lovefoxxx (Do filme "Drive")
2. Scent of Death - Alexandre Desplat (Do filme "Argo")
3. Silver Lining - Jessie J. (Do filme "O Lado Bom da Vida")
4. Ghosts - James Vincent Mcmorrow (Do filme "Amanhecer - Parte 2")
5. Umbrellas - Abel Korzeniowski (Do filme "W.E")

Os refrãos mais grudentos:
1. Let's Have a Kiki - Scissor Sisters
2. Army of Me - Christina Aguilera
3. Xirley - Gaby Amarantos
4. Beautiful Killer - Madonna
5. Try - Pink

As músicas que me fizeram dançar pela casa afora:
1. I'm Just Me - Diamond Rings
2. We Are Young - Fun ft. Janelle Monáe
3. How To Be a Heartbreaker - Marina and the Diamonds
4. Roupa do Corpo - Filipe Catto
5. Good for You - Icona Pop

As músicas que ninguém conhece:
1. Lazuli - Beach House
2. This Girls Prepared for War - Belle
3. Waves - Blondfire
4. Union - Deptford Goth
5. Float - Ko Ko

Os discos que ouvi do princípio ao fim
1. Birdy - Birdy
2. Sun - Cat Power
3. Caravana Sereia Bloom - Céu
4. Anar - Marketa Irglova
5. Trilha Sonora do filme "Intocáveis"

Os clipes marcantes:
1. It's Only Life - The Shins
2. True Romance - Citizens
3. Kiss - Melanie Laurent
4. Union - Deptford Goth
5. Pra Sonhar - Marcelo Jeneci
Bônus - Here With Me - The Killers

Imagem capturada aqui.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

E agora, aonde vamos?


O filme é sobre o conflito religioso no interior do Oriente Médio e mostra as cicatrizes deixadas por anos de embates sangrentos motivados por discordâncias de credo. No entanto, a trama de "E agora, aonde vamos?" (Et maintenant on ya o ù?, 2011) é tão verdadeira que a identificação se estabelece já na primeira cena, pois a insanidade de conflitos entre irmãos e vizinhos é passível de ocorrer em qualquer lugar ao redor do mundo.

A diretora Nadine Labaki introduz humor e ironia em meio ao pano de fundo de tensão no qual se desenrola a história e permite a nós, espectadores ocidentais, uma visão menos estereotipada daquele povo. Em uma pequena vila isolada vivem pacificamente duas comunidades: uma cristã e outra muçulmana. Quando conflitos religiosos estouram no país, as mulheres da vila sentem que a paz está ameaçada e passam a sabotar a entrada de informações sobre a guerra para distrair os homens de começarem sua própria luta.

Para não verem seus filhos e maridos mortos por algo que não acreditam valer a pena, as mulheres se unem em planos mirabolantes e, juntas, funcionam como uma coluna vertebral da aldeia. É bonito de ver os esforços de mães e esposas para diminuir a população do cemitério local. E tudo feito com muito bom humor. Desde religiosas fervorosas simulando falsa conexão com uma santa até a fabricação em massa de bolos de haxixe sem que em nenhum momento o filme soe ofensivo ou emita julgamento sobre nenhuma das crenças.

Dizer mais talvez estrague as surpresas e também as dores espalhadas por toda a narrativa. Dramas e alegrias vem como ondas seguidas uma após a outra em um movimento muito parecido ao que a vida faz. Ao final, a mensagem que fica é aquela que já está explícita no título - se vivemos divididos e só vemos diferenças, afinal, aonde vamos?

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Dezessete de Dezembro de 2012 - segunda


Meu desejo era inaugurar nessas linhas uma maneira de não me repetir, mas fazer o que se sou um amontoado de repetições em ritos que adoro saber de cor? Em dezembro de 2011, comecei a colecionar os dias dezessetes de cada mês fazendo um diário que completa um ano hoje.

No final do dia, refiz o mesmo trajeto que inaugurou esta sessão em 2011. Caminhei pelas ruas do Centro com a sensação de que encontraria comigo mesmo: barba por fazer, cabelo mais curto, camiseta pintada a mão, olhar perdido em absurdos cotidianos. Abraçaríamo-nos em silenciosa compreensão e, em seguida, eu me explicaria o quanto é desnecessário o sofrimento em vão.

Depois de muitos dizeres, me encheria de afagos para que não fosse preciso dizer mais nada. A pele sendo a memória do corpo desenharia cicatrizes e sossegos que o Wolney de antes não ousaria experimentar.

E assim, de mãos dadas comigo mesmo, sem corromper a velha prosa sobre o tempo ou a falta dele, caminharíamos pela rua vasculhando perfumes conhecidos e aleatoriedades horizontais.

Afinal, reencontrar-se é uma das formas de seguir em frente.

Imagem: Wolney Fernandes

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Doce Novembro


a. A moça do caixa dá aquela risada gostosa sempre que um novo cliente se achega para comprar um sanduíche. Alguém pergunta a razão do riso e ela responde que sorri porque é feliz!

b. Ao sair do elevador ouço o porteiro comentar com a moça da limpeza: "Eu gosto mesmo é da empregada do 1207. Ela é show!"

c. No meio da manifestação, um jovem corre até a calçada para ajudar uma senhora a carregar as sacolas do supermercado.

d. O casal de idosos entra comigo no elevador. Ela pergunta: "que horas são?". Ele responde em tom de brincadeira: "Oração só tem na Igreja". Sem obter a resposta desejada, ela segue caladinha até a porta se abrir e eles ficarem no sétimo andar. Ouço ela reclamar antes da porta se fechar: "Tem coisas que não tem graça em lugares impróprios..."

e. Na ponte da marginal, uma senhora apressada parece não perceber que carrega o sol nas mãos.

Foto: Wolney Fernandes

domingo, 18 de novembro de 2012

Argo


"Argo" tem direção competente de Ben Affleck que [re]constrói uma história verídica de maneira brilhante.

Destaque para a ótima direção de arte que faz a gente ter a sensação de que o filme foi filmado no final dos anos 70. Época em que os iranianos invadiram a embaixada americana revoltados com a influencia dos EUA nos eventos que desencadearam um período difícil no Irã.


Para minha surpresa, o filme foge daquele padrão americano de contar histórias colocando a nação estadunidense como a salvadora de todas as pátrias do planeta. De maneira sincera, os eventos mostrados são desencadeados tendo a vida humana como o bem mais precioso de uma nação.


Mais uma vez a realidade é quem dá as cartas para a ficção, mostrando o quanto a vida real é permeada de boas histórias que já parecem prontas para a tela grande.

Minha única ressalva está no fato do protagonista ainda ser permeado de clichês do gênero. Mas nada que comprometa o bom resultado da narrativa. Vale a pena conferir!

sábado, 17 de novembro de 2012

Dezessete de novembro de 2012 - Sábado


Apesar dos desatinos de ontem é preciso manter a ternura no dia de hoje. Abro os olhos na manhã de sábado e antes que esse pensamento chegue ao fim, minha irritação me abraça. Seis e quinze e a persiana esquecida aberta na noite anterior deixa entrar uma luz que me desperta antes da hora. Maldito horário de verão.

O fato de ter que me arrastar até a janela para fechá-la coloca azedume em minha [in]disposição. Durante a minha expedição até a persiana, o vôo tremulante de uma borboleta que alcançou as alturas do décimo andar tenta manter a doçura do dia.

Consegue!

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Dias assim


Acordar na segunda-feira antes do despertador tocar e ter tempo para ouvir as trilhas do Abel Korzeniowski no banho.
Ir para o trabalho e sair de lá sem hora marcada para estar em outro lugar.
Almoçar naquele restaurante de comida caseira ouvindo as músicas mais bonitas, escolhidas a dedo no dia anterior.
Passar na porta do cinema no Centro no exato momento em que a sessão de um filme bom está para começar e ficar para assistir. Comprar pipoca e água com gás sem precisar de enfrentar fila. Entrar na sala e descobrir que a cópia do filme é legendada.
Voltar para casa depois da sessão e, no caminho, encontrar caixas de correio personalizadas para fotografar.
Em casa, depois do banho, adiantar dois trabalhos iniciados e ficar respingando imagens pela internet.
Convesar com amigos que querem saber do seu dia e, por puro desinteresse, ficar trocando pensamentos e conversas desimportantes enquanto o disco preferido toca sem pressa de acabar.
Ter vontade de tomar sorvete de creme e não ter preguiça de sair a pé para comprar.
Voltar sentindo os pingos da chuva que, sem aviso nenhum, começaram a cair.
Ler duas páginas do livro de cabeceira e adormecer em seguida sem fechar a janela do quarto.

Ontem foi assim e meu desejo é que seja assim para sempre.

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Common People Reading



O Common People Reading nasceu assim:

Primeiro veio o encantamento com a descoberta do tumblr “Awesome People Reading” que, como o nome sugere, publica fotos com curtas legendas de artistas de todos os campos e pessoas célebres de todos os tempos lendo um livro, um jornal, um roteiro ou qualquer coisa. A limpeza do blog e a lindeza das fotos, com um acervo bem graúdo, renderam horas e horas de namoro e fecundação… Daí pra invencionice foi um pulo, como sempre: por que não inspirar atuais e novos leitores/as com fotos de nós mesmo, simples mortais? Seguiu-se curto período de negociação com a rede já conhecida de leitores/as e as primeiras peripécias para produzir fotos em poses criativas, obras das nossas preferências e com autores das nossas devoções. Pronto: entramos na etapa da anarquia do compartilhamento e da recriação sem fim.

Ficou com vontade de participar? Envie sua foto para wolney7@gmail.com

Texto de Walderes Brito e foto de Wolney Fernandes

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Dezessete de outubro de 2012 - Quarta


Minha rota de fuga encontrou aporte nas últimas páginas do livro "Ao Anoitecer" de Michael Cunningham que eu, depois de meses de leitura arrastada, desejava terminar. Não porque o conteúdo da obra fosse maçante, mas porque o cansaço dos últimos minutos do dia não me deixavam avançar mais do que três páginas antes de dormir.

"Quem pode decifrar a profundidade e a natureza de nossas aflições?"

Abandonei a vontade de ver um filme no meio da fila e, com o livro em punho segui para o parque em plena tarde de quarta-feira, ávido para saber o destino de Mizzy, Peter e Rebecca, vértices de um triângulo curioso. Peter Harris, dono de uma galeria de arte contemporânea, com 44 anos é casado com Rebecca e, de repente, se vê extremamente perturbado e atraído pela presença do cunhado - Ethan, apelidado de Mizzy - vinte anos mais jovem, que precisa passar uma temporada hospedado em sua casa.

Mizzy é uma provocação ao conceito de liberdade porque embora o rapaz tenha todas as possibilidades diante de si, nunca consegue se decidir por nenhuma delas. O fascínio que ele desperta em Peter [e em nós, leitores] é ainda ampliado por dois trunfos, talvez perversos demais para qualquer pessoa com mais de 35 anos: beleza e juventude.

"Juventude. Impiedosa, cínica, desesperadora juventude. Ela sempre vence, não é?"

No meio de tantos questionamentos sobre liberdade e juventude colocados no livro, este com certeza foi  o que mais me tocou. Perto dos 40 anos começamos a ficar seduzidos por esse suposto poder absoluto que reside no simples fato de ser jovem e passamos a olhar a juventude de um outro lugar, sem saber exatamente onde está situada a linha muito tênue da maturidade.

O desfecho da história é brilhante. Eu que gosto de começos, fiquei fascinado pelo final do livro que entre tantas surpresas, nos convoca a olhar para nossos interiores em parágrafos impecáveis como este aqui;

"A história favorece os amores trágicos, os Gatsby e Anna K., os perdoa, ainda que acabe com eles. Mas Peter, uma figura pequena numa esquina indistinta de Manhattan, terá de perdoar a si mesmo, terá de acabar consigo mesmo porque parece que ninguém fará isso por ele. Não há estrelas folheadas a ouro sobre lápis lazuli acima de sua cabeça, apenas o cinza de uma tarde loucamente fria de abril. Ninguém vai esculpi-lo em bronze. Ele, como todas as multidões que não são lembradas, está esperando polidamente pelo trem que com toda a probabilidade nunca virá."

Sem mais, feliz por ter fugido das tarefas de todo dia, fechei o livro com aquela vontade de continuar nele!

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Cúmplice


No meio da fila para comprar o ingresso, desisti do cinema. Sem explicações para aquela súbita desistência sentei na praça de alimentação e vi um amor morrer. Ele, desolado, buscava o toque das mãos dela. Ela chorava silenciosamente. Rosto imóvel, lágrimas rolando sem parar.

Entre os dois, uma história inteira definhava frente ao silêncio que o choro fazia escorrer. Ao redor dos dois, riso e movimentação escondiam aquele amor agonizante. Nos minutos finais ele olhou no relógio e ela pegou a mochila. Partiram cada um para um lado.

Estranhamente, a vida continuou em seu movimento normal. Nenhuma música de fundo, nem mesmo um olhar de hesitação sobre o ombro. Ninguém fez nada diante da morte daquele amor. Nem eu.

Cúmplice, retirei-me da cena do crime com o coração na garganta.

Imagem capturada aqui.

domingo, 14 de outubro de 2012

Pequenas empresas, grandes negócios


No meio da praça, a vendedora de sombrinhas fotografa suas clientes para mostrar o quanto ficam mais bonitas usando o assessório.

Na esquina, parado ao lado do carrinho de flores, o vendedor de orquídeas aguarda a próxima venda com a máquina de cartão de crédito em punho.

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Maratona Dominical


Depois de anos, fui à missa de domingo naquela que já foi minha comunidade paroquial. Maratona! Minha alma de filho pródigo ficou logo no estacionamento da igreja quando a família do carro da frente saltou do veículo e o motorista resolveu dar uma ré sem olhar no retrovisor. Minha mão na buzina só serviu para me deixar surdo porque o moço ao volante nem percebeu quando seu carro bateu no meu.

Suspirei primeiro antes de abrir a porta do carro e já saí recitando o ato de contrição antes do pecado ser cometido. Entoei o hino de louvor quando verifiquei que não houve arranhões no para-choque enquanto a família feliz seguiu unida até a porta do templo sem se importar com o ocorrido.

Na entrada, um grupo de pessoas distribuíam boas vindas. A minha só foi dada depois de um convite para ajudar na catequese. Nestas horas, sempre me valho da triste condição de doutorando na justificativa pela não adesão ao chamado. Uma imagem insólita passou pela minha cabeça quando me imaginei frente a uma turma de catequizandos profanando todos os preceitos católicos e alargando a dúvida sobre o seguimento à Igreja. Sorte a deles por eu não estar disponível para a missão.

Antes mesmo de me sentar para aguardar o início da celebração, fui abordado por outra líder comunitária que, na aparente preocupação em saber notícias da minha família, me passou um santinho do seu candidato preferido e se certificou que a receita de macarrão, impressa no verso da foto, me faria um eleitor fiel. Mal sabe ela que eu nem sei cozinhar.

Suspirei aliviado quando os acordes do canto de entrada ecoaram pela igreja, mas meu alívio exauriu-se na homilia. Quando o padre sugeriu que o meu corpo poderia me levar para o inferno, eu aproveitei a deixa e convenci "o meu próprio corpo" a me levar para casa.

Ufa! Escapei por pouco.

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Prece para outubro


Por um outubro de miudezas, de movimentos que me arranquem sorrisos, de molecagens infinitas.

domingo, 30 de setembro de 2012

Em cada canto de setembro


No parque, uma família chega e o cachorro, em disparada, escapa para se refrescar no lago.

No bar, peço um cozumel ao garçom e ele, todo sem jeito, responde que não tem mel.

No facebook, um amigo do ensino médio me chama de beato ao saber que estou solteiro. Pergunto se ele se casou e me surpreendo quando ele responde que está saindo do terceiro casamento.

No shooping, uma mulher pede para que eu a fotografe entre a mãe e a filha.

No cinema, um avô senta ao lado do neto para assistir o filme na fila da frente. De dois em dois minutos, o menino pergunta quanto tempo ainda falta para a sessão começar.

Na livraria, a primeira linha de um livro me convence que vale a pena comprá-lo: "No final ela morre e ele fica sozinho".*

No trabalho, um ex-aluno vira meu professor.

Na pamonharia, a dona, de cara amarrada, me atende com um muxoxo inaudível querendo me fuzilar com os olhos quando peço uma pamonha. Sendo o único cliente do estabelecimento, trato de comer rapidamente sem olhar em sua direção. Ao me dirigir até o balcão para efetuar o pagamento, percebo que ela tenta esconder, sem sucesso, um livro da coleção Sabrina: "Prisioneira da Paixão". Saio dali com um sorriso escondido no canto da boca.

[*] Citação do livro Bonsai de Alejandro Zambra.
Imagem capturada aqui.

sábado, 29 de setembro de 2012

Sorria, você está sendo filmado!


Sorria! O mundo desaba, o leite transborda, o grande amor não é exatamente aquilo que se espera, muito menos o emprego. Mas esperam que você sempre diga sim, que esteja acompanhado, perca peso, seja bom em tudo, engula o choro e sorria. Esperam que você seja tudo aquilo que todo mundo espera. Não adianta, você realmente está sendo filmado e "calculado, mesmo sem medida".



Imagem do filme O Show de Truman. Olhei aqui.

Vale de Agonias


Coisas que estão dentro do meu Vale de Agonias:

- Nossa Senhora Aparecida sem cabeça
- Broca de dentista
- Peruca de nobre francês
- Minhoca espetada em anzol
- Palito de fósforo usado
- Colher enferrujada
- Cachorro da raça pincher
- Cachorro de camurça daqueles que só balançam a cabeça
- Cusparada no meio da rua
- Bituca de cigarro
- Olhos vidrados de boneca de porcelana
- Bife de fígado mal passado
- Botox em rosto deformado
- Cabelo vermelho do Sílvio Santos
- Cigarro atrás da orelha
- Fonte Comic Sans
- Quadros de temas religiosos com efeito 3D
- Cheiro e cor de jenipapo
- Significado da palavra limbo
- Faustão

Imagem do jogo Limbo. Olhei aqui.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Janela Indiscreta


É noite de sexta. A brisa fresca me conduz até a janela do quarto. Enquanto a boca articula conversas sem fim ao telefone, meus olhos são pegos de surpresa quando noto que o vizinho do prédio ao lado, sem camisa, dança em frente ao espelho.

Simultaneamente, na porta da Igreja Batista, uma noiva desce do carro preto sem se importar com o vento que carrega seu véu para longe. Cercada por ajudantes prestativas, ela se posiciona na entrada do templo enquanto o fino tecido é recolocado em seu lugar.

Percebo que o vizinho dançarino empunha o que me parece um microfone improvisado e, além da dança, inicia uma performance digna de um show de rock.

Uma senhora sai da padaria andando lentamente e tenho a impressão que irá demorar uma semana para atravessar a rua. A noiva desaparece na nave da Igreja enquanto ouço sons de trompetes misturados ao burburinho de vozes em torno da piscina do condomínio de luxo que fica do outro lado da rua. Um casal, na sacada, olha a noite, enquanto conversam.

Já não escuto mais o som do coro da Igreja. As luzes de freio dos carros que contornam a Praça Cívica vão diminuindo à medida que o sinal se esverdeia. A velhinha ainda está na metade do caminho quando termino de falar ao telefone. 

Apoteose no show que o vizinho cantor executa. De cima da própria cama, imagino eu, ele dá um salto até o chão se contorcendo até desaparecer do campo de vista da janela. Tenho vontade de aplaudir, mas ele volta à cena e me faz perceber que o show ainda não terminou. 

Alguém pediu bis e eu nem notei.

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Fome de Instantes


Na maior parte do tempo não adianta esperar de mim reações rápidas. Eu não sei fazer isso. Preciso respirar fundo, cheirar o ar e sentir a temperatura da água com a ponta dos dedos. Eu preciso pensar para responder porque meus dois neurônios - coitados! - não valem por um bifinho. Preciso abrir arquivos, revirar fichas e navegar por mares de teias de aranha e oceanos de pó.

Demoro para pensar numa boa resposta, demoro para dormir, demoro para gozar, demoro para lembrar o nome das pessoas e com certeza vou ter Alzheimer.

Eu preciso de tempo, de espaço e do vagar que puder obter, roubar, mendigar, ganhar e merecer. Tenho fome de instantes porque o tempo talvez seja a única verdade inquestionável da vida.

Imagem capturada aqui.

sábado, 22 de setembro de 2012

Você não mora mais aqui


Reaprendi a achar graça no cotidiano. Voltei a estender a mão só pra sentir os pingos da chuva e entendi que nem tudo precisa ser monótono. Passei a acreditar que aquele pôr do sol foi feito só pra mim e que o gosto meio amargo do chocolate é mero acaso.

Consigo sorrir novamente sem fazer festa para encobrir o silêncio*. A beleza voltou para o seu lugar em cada canto, em cada tempo, em cada despertar.

Já ouço "Fica" do Chico sem que a última estrofe me prenda em pensamentos vagos porque o meu coração, antes vazio, transborda o perfume do agora.

"Diz que é pra tomar cuidado
Sou um desajustado
E o que bem lhe agrada, meu bem
Mas fica
Mas fica, meu amor
Quem sabe um dia
Por descuido ou poesia
Você goste de ficar"

Com o gosto dos alívios na boca, abro os olhos e percebo que você não mora mais aqui.

[*] Citação do livro Mrs. Dalloway de Virginia Wolf.

Compartilhamento


E o movimento da vida continua intocável.
Só queria compartilhar...

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Esperando a primavera chegar


Com um sentimento de fatalidade, procurei possíveis perfumes debaixo de um Ipê amarelo e acabei adormecendo ali mesmo, esperando a primavera chegar.

Foto: Rosi Martins

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Dezessete de setembro de 2012 - Segunda


A segunda-feira não chegou com os contornos dos começos. Desde a sexta eu já havia começado a anotar tudo que a memória conseguiu guardar para escrever em meu Diário Dezessete. É por isso que não há pausas para espaços porque tudo aconteceu em tão pouco tempo.

Chuvaprincesaveioregartodaquenturadanaturezaquesepreparaparaparirmaisumaprimaveraáguanoquartonachegadadaviagemmeucoraçãopareciaventilarsossegoseapesardocalorfoiotimoexperimentarossaboresgeladosdaquieaardênciarefrescantedeláentrepasseioseencantoscadacantoparecianovopelaretinadeolhosdemergulharemolduradosporsobrancelhasquesemovemindependentementevontadedeaçaíconversasemhoraparaterminar...

Os dias parecem terminar mais cedo com esse horário louco do sol se pôr. Entre o sábado e a segunda, Alanis Morissette apareceu por aqui para colocar cores nos sabores de sempre. Tanta coisa interessante vivida desde sexta que, se eu não tivesse presenciado tudo, eu classificaria esse final de semana como implausível.

O próximo se passará pouco tempo depois da epifania em busca de uma música que supere essa aqui.

"I'm slipping again
I'm up to old tricks off my wagon
I have no defense
I'm wreaking havoc
Wreaking havoc and consequence"

Imagem: Wolney Fernandes

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Sobre escolhas e apuros


Dedos e olhos percorrendo lombadas variadas até encontrar um livro que me defendesse do tempo infinito da internet e também me condenasse a horas de leitura sem fim.

É terça-feira, a aula foi cancelada e meu trabalho nunca prometeu nada além de algo comum, então sinto que tenho o direito.

Percebo o pontilhado que percorre parte da capa e meus olhos resolvem seguir aquela trilha quase invisível. Entro sem me importar com o título - "Bonsai" - e me detenho na epígrafe de Gonzalo Millán:

"A dor se talha e se detalha "

Feito criança que deseja ouvir sempre a mesma história antes de dormir passo ao primeiro parágrafo como de costume e o livro de Alejandro Zambra consegue colocar quietudes em mim:

"No final ela morre e ele fica sozinho"

Não consigo mais devolver aquelas palavras à estante da livraria. A vontade de devorar a obra em uma mordida só, me faz levar o livro pra casa. Me delicio com a profundidade de cada paragrafozinho e fico feliz pela escolha.

Leio quase inteiro, mas perto do fim, vem a vida e resolve ficar apurada.

Imagem: Wolney Fernandes

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Caprichos de agosto


01. Dez dos 13 trabalhadores uniformizados limpam o canteiro da faculdade. Ao lado, os outros três fazem piquenique na relva.

02. Na livraria, o pai carrega a filha nos braços enquanto o filho mais velho corre entre as prateleiras. A mãe vê a correria e ralha com o menino. O pai pede que a mãe deixe o pequeno em paz. Zangada, a mulher lança um olhar frio para o marido e se dirige ao caixa sem olhar para trás. Ao vê-la se afastar, o pai chega bem próximo ao filho e sugere, carinhosamente, que ele escute o pedido da mãe. 

03. Recebo a seguinte mensagem no celular: "Que mundo é esse onde as lojas de brinquedo tem mais artigos de Patati Patata do que de Star Wars?!"
- Não sei, Ana, não sei! Que a força esteja com você!

04. Ele está com um dos pés para fora do carro e olha para ela como se esperasse uma resposta de uma pergunta inaudível. Ela chora sem conseguir disfarçar a briga que acaba movimentando a mesmice do estacionamento.

05. O grupo faz tremular bandeiras do candidato à prefeitura no cruzamento da avenida. A mulher de vestido estampado dança, rodopia e se destaca pela alegria e entusiasmo no final do dia.

Imagem: "Piquenique na Relva" de Manet

domingo, 26 de agosto de 2012

Eu quero ter um milhão de amigos*


Atualmente, 844 é o número de amigos que tenho no facebook e, amiúde, tem sempre alguém que se espanta com esse número. É claro que o espanto vem sempre seguido daquele discurso da seleção [nem tão natural assim. Te cuida, Darwin!] que as pessoas, mesmo sendo parte da rede, insistem em proclamar: "só adiciono quem eu conheço" ou mesmo "sou muito seletivo e só tenho no facebook as pessoas com as quais eu interajo na vida real"... hã?

Os mais radicais [segura essa!] promovem "festivais de unfollow" e se dedicam por horas a fio ao ato soberano de dar um "block" em quem não está interagindo [entenda por interação "curtir"e ou "comentar"] suas postagens. Interajo na medida que vejo e, as vezes, nem é preciso dar um like para que a interação aconteça. 

Por que essa nossa mania besta de querer transferir para as redes sociais as estruturas da vida real? Talvez quem pense assim tenha se esquecido de que a vida é descabida por natureza e, por isso, não cabe em lugar nenhum. No facebook, muito menos! Lá eu quero mesmo é ver e fazer o que nem sempre é possível do lado de cá da tela.

Quero mergulhar, encontrar e ser encontrado nesse mar de gentes. Espalhar pensamentos meus como quem joga papéis pela janela, poder falar com pessoas que moram do outro lado do mundo e brincar de viagem no tempo proporcionada pelos fusos horários mais variados. Quero ver paisagens da Tailândia, colecionar imagens de calendários antigos e me emocionar com frases prontas da Clarice Lispector. E se para tanto eu precisar de um milhão de amigos [Te cuida, Roberto Carlos!], que seja!

[*] Título retirado da música do Roberto Carlos.
Imagem capturada aqui

sábado, 25 de agosto de 2012

Confrontos


O vinho circulava em pequenas taças que tilintavam a cada novo brinde. Um breve esquecimento do mundo foi um direito que julguei merecer. A cada gole, fechava os olhos buscando o sabor imediato daquela ausência de mim que eu tanto almejava.

Desprovido do gosto dos esquecimentos, a cada conversa posta na roda o amargo da realidade se misturava ao doce do vinho tinto. Viagens ao redor do mundo me levavam de volta aos abarrotamentos do meu quarto. Amores derramados por anos a fio preenchiam meu coração vazio com os fracassos dos meus próprios afetos. Sucessos profissionais me lembravam o suor que derramei para cruzar a linha de chegada em terceiro lugar. Projetos para o futuro apontavam os espaços em branco do meu presente que não se ausenta.

Olhei para as migalhas de pão em meu prato e me juntei a elas. Naquela noite, não houve brechas em minha realidade por onde a alegria pudesse entrar. Ali, em meio aquela celebração profana, a vida me confrontou.

Imagem de James Gallagher. Olhei aqui.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Promessa


* Citação da música de Oswaldo Montenegro

Exercício de imaginação


Imaginar? tudo bem, vamos lá!
Eu seria uma dessas pessoas que sempre sabem onde estão, que se localizam olhando as estrelas sem dar trela para a voz do GPS. Meu pulsos, mais largos, ostentariam tatuagens desenhadas com escritas e eu nunca teria preguiça de fazer a barba.

Eu jamais guiaria um carro e não teria tanta raiva escondida aqui dentro. Eu teria tempo e um cinema inteiro só pra mim. Teria mais talento e menos vocação. Eu seria uma dessas pessoas que pensam depois de fazer. Usaria chapéu de côco e saberia colocar as vírgulas no lugar certo.

Eu faria jardinagem ou teria alguma outra atividade aristocrática. Não teria pesadelos. Teria um balanço na sala e um poster de "Volver" no quarto. Não aturaria desaforo nunca e só usaria camisetas com estampas de insetos.

Eu saberia fazer pratos de comer com os olhos e a academia seria o lugar do prazer. Acreditaria em tudo que não creio mais e nunca teria me apaixonado pela Julie Delpy.

Imagem capturada aqui.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Desejo de uma tarde de quinta

Eu queria mesmo era morar dentro desse filme.



E olha que ainda nem comecei a falar da Nina Simone.

Respostas


Porque uma boa história é a melhor coisa que pode nos acontecer em qualquer dia da semana, em qualquer semana do ano.
Porque é uma delícia poder acreditar, ainda que só por uma hora e meia, que o amor não termina mesmo quando chega o fim, que o talento será compensado e que teremos coragem para fazer tudo o que o coração pede.
Porque cremos, raspados de várias camadas de dor e ceticismo, que um dia vamos encontrar nossa vocação.
Porque as distâncias, mesmo atravessada por fronteiras, tem cheiro de cartas, abraços demorados e mensagens infinitas.
Porque enquanto o sinal não fica verde, revelações metafísicas nos assaltam.
Porque nunca é tarde demais para outra colher de doce de leite.

Foto: Wolney Fernandes
Desenho de Iberê Camargo

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Dezessete de agosto de 2012 - Sexta


No meio do dia eu entrei na sala de cinema com desejo de nunca mais sair.
No meio da tarde, eu saí da sala de cinema com desejo de voltar. 
Voltei!
No meio da segunda sessão: "Só se vive uma vez. Quantas oportunidades nós temos?"*
No fim das minhas inquietações pela fuga no meio do expediente: "Foda-se!"*

Imagem: Wolney Fernandes
Trechos do filme 360

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Intervalos entre capas e conteúdos


O nome do Pe. Fábio de Melo na capa não inspirava nenhum tipo de motivação para que meu interesse se fixasse naquele livro. Ao contrário, sempre fujo dessas armadilhas literárias orquestradas por padres fábios, marcelos e afins.

A capa também não era lá um exemplo de bom design. Sim, sou ávido praticante de buscas por capas inspiradoras. Encantado com a beleza da casca, já mergulhei em muitas histórias sem sabor. Mas não era o caso. Um passo vacilante fez meu interesse se fixar no título da publicação - "Orfandades - o destino das ausências" - e foi exatamente isso que me fez parar.

Estava na rodoviária de Brasília, o que já me garantia uma certa folga em relação ao anonimato. Tinha cerca de 20 minutos antes da chegada dos amigos que iriam me buscar no local. Mesmo assim, cautelosamente, espiei no entorno antes de pegar o livro da prateleira. Não podia correr o risco de ser confundido com um desses fiéis lambedores de tudo que padres fazem, cantam ou escrevem. Mesmo já tendo sido um desses fiéis no passado, em minha fase so cool não caberia tais carolices.

Li o texto da quarta capa. Gelei. O trecho me arrebatou de imediato, pois descrevia identificações muito caras a sentimentos já vivenciados no passado e, para piorar, o conteúdo era embalado no que eu considero uma boa escrita. Corri para o sumário na esperança de que ele me libertasse daquela identificação inicial e tropecei em um pequeno trecho inicial:

"[...] Ousei ver de perto o desconforto dos que não negligenciaram o assombro dos breus. Deite a toalha branca sobre a mesa. A crueza literária está posta. Este livro é filho das saudades."

Novo arrebatamento e eu, já desesperado, não sabia como largar aquele livro de novo na prateleira. Olhei novamente ao redor e ponderei silenciosamente com meus botões: "Calma, Wolney! Não se apegue a estas breves palavras. Comprar esse livro só vai evidenciar ainda mais as incoerências que você faz questão de esconder."

Fazendo pose de cara mais coerente do mundo, abandonei o livro entre os outros, saquei meu iPhone do bolso e fui postar e curtir fotos no Instagram porque é isso que os caras descolados fazem. Meus amigos chegaram e o final de semana transcorreu entre risos, sabores, encontros e um certo desconforto. Sim, minha suposta coerência tinha sido posta a prova por um livro do Pe. Fábio de Melo.

Na volta, pensei em comprar o livro juntamente com uma revista porque se a moça do caixa me perguntasse ou fizesse olhar de reprovação, haveria sempre uma possibilidade de dizer que a revista era pra mim e o livro uma lembrança para minha mãe. Benditas sejam as mães! Cult, Bravo ou Select seriam bons títulos para evidenciar a [também suposta] distância entre as duas publicações e me livrar desse suposto constrangimento.

No final das contas, a fome falou mais alto e, por precisar ficar na fila para comprar um lanche antes de embarcar, acabei voltando para Goiânia sem ter tempo de passar pela livraria. Foi na viagem de volta que me dei conta de que, outra vez, estava eu naquela tentativa ridícula de parecer uno, centrado, coerente, preciso e locado em um pólo apenas. A verdade é que sou "erudito e popular na mesma toada"como um amigo bem escreveu a esse respeito e que vivo passeando, o tempo inteiro, entre um pólo e outro.

Comprar livro pela capa, mesmo odiando o conteúdo como eu já fiz várias vezes, me pareceu tão mais vazio do que o contrário dessa equação. Se o livro do Pe. Fábio de Melo havia me atravessado pela escrita, que mal haveria em considerar isso como parte dos meus gostos e afetos? Desconsiderar o conteúdo que me tocou em função de uma pseudo erudição que se finda nos meus en(cantos) subjetivos é besteira que não quero ficar repetindo por aí.

Na chegada, tratei de garantir meu exemplar do livro, encarando a atendente da livraria para perguntar: Você tem o livro novo do Pe. Fábio de Melo? Sorrisos fartos. Ela tinha! Se o livro é realmente bom ainda não sei dizer. No entanto, sigo aprendendo a prestar mais atenção naquilo que meus olhos não se fixavam antes e me deixando atravessar por palavras que me arrepiem os poros e que fazem minha boca ter sede de escrita.

[O tal trecho da quarta capa]
"Era assim. Na escuridão da noite eu procurava o corpo paterno. Aconchegava-me ao seu lado e punha atenção no compasso de seu respiro de homem. A tudo eu contemplava. A voz grave, a postura de quem não conheceu as delicadezas do mundo, a exata medida das mãos que minhas mãos gostariam de ter, tudo observado em silenciosa admiração. A barba cerrada, o olhar capaz de enxergar-me no escuro, o alívio do medo, a devolução da vida. Meu pai e seu mundo profundo. Eu e meu mundo de estreitezas. Ele, na liberdade de estradas que não conheciam destino nem fim. Eu, na solidão de paredes sensatas, prova de que os laços de sangue podem nos privar das alegrias, ocultando-nos em abrigos inóspitos onde prevalecem as pregas da cortina que nos desprotege sem piedade."

Foto: Wolney Fernandes