sábado, 30 de julho de 2011

Registrar para existir?

Na última viagem que fiz, minha primeira promessa era não me deixar enforcar pela alça da câmera fotográfica. Segundo meu próprio direcionamento, o registro seria feito só depois de saborear cada pedacinho de vista, pessoa ou situação que perfumasse meus olhos. Tudo que eu queria era viver a experiência sem uma lente se interpondo entre mim e o fato vivenciado. Ainda assim, cerca de mil e duzentas(!) fotografias foi o saldo dos 15 dias que fiquei fora.

Para quê tudo isso? É sempre a pergunta que me faço ao descarregar as fotos no computador. Será que deixar de documentar minhas experiências e emoções fará com que eu me esqueça delas de forma mais rápida? E mais! Se não divulgar estes momentos em redes sociais, blogs e outras traquitanas por aí, eles deixam de existir?

Claro que a resposta é não, mas pelo andar da carruagem, me parece que tudo que não for registrado e divulgado desaparecerá de nossa memória. Aniversários, sorrisos, namoros, sessões de cinema, despedidas, desenhos rabiscados no caderninho, passeios, estranhamentos, bonitezas... ocasiões importantes que, por vezes, se transmutam em situações fugidias, pela necessidade de documentação.

Escrevo isso e a urgência desse tempo que vivemos me faz ter a sensação de que sou um velho saudosista sem a noção da revolução que as novas tecnologias fizeram no campo da imagem. No entanto, mesmo em dias como os nossos, é preciso pensar que a vida também acontece sem provas documentais.

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Nesses dias...

























1. Si ti Contara - Ibrahim Ferrer
2. Buildings & Mountains - The Republic Tigers
3. Nina - Chico Buarque
4. Rapture - Blondie
5. Mundo Abisal -  Jorge Drexler
6. I've Got a Crush On You - Ella Fitzgerald
7. Price Tag - Jessie J. ft. B.O.B.
8. Chances Are - Garrett Hedlund
9. Moves like Jagger - Marron 5 ft. Christina Aguilera
10. Amazing - One Eskimo

Foto capturada em navegações por aí. Se alguém souber a autoria, é só gritar!

domingo, 24 de julho de 2011

Ynés e Ricardo

Quatro cartas de amor trocadas por dois amantes nos meses de janeiro e fevereiro de 1907. Ela, Ynés de la Torre, moradora de Puebla. Ele, Ricardo Farias, da Cidade do México. Juras de amor, pedidos de desculpa, gestos e palavras apaixonadas descritas em atravessamentos atemporais.

Caminhos desconhecidos fizeram estas cartas atravessarem um século inteiro para repousarem, agora, em sentidos variados que eu, por alguma razão, começo a [re]construir.

Foto: Wolney Fernandes

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Umbigo da Lua

Meu olhar de turista, desajustado, encontra repouso naquilo que é fugaz. Esse mesmo olhar, cansado das permanências, na maioria das vezes já não consegue brincar nos museus e nem ouvir com atenção as repetidas explicações pedagógicas dos guias diante dos grandes monumentos.

Em artimanhas imprecisas, meus olhos se iluminam em cantos, detalhes e texturas abandonadas, onde o tempo desenha marcas mutantes a cada nova mirada. Me interessa olhar para a vida que acontece pelas frestas do cotidiano e, tão só, me deixar surpreender.

A mulher no canto do metrô pinta com rímel os cílios já carregados de tinta. Os números do portão, desenhados à mão, delineam outros modos de escrita e a cor contrastante dos carros estacionados em direções opostas me roubam instantes de puro contentamento.

Foi assim nos dias que estive na Cidade do México. Por tantas vezes, marquei o mesmo trieiro só para ir [re]descobrindo nuances novas em lugares já visitados: o mercado da Ciudadela, a Casa da Frida Kahlo, a Feira de Antiguidades, as ruas da Zona Rosa...

As tardes em museus eu troquei por passeios de carrossel, as fotos dos grandes monumentos eu substituí por imagens dos engraxates e as cores que me tatuaram vieram das bandeirolas recortadas em papel de seda. Meu lugar de descanso era a sombra das laranjeiras plantadas em pátios desconhecidos.

Os estranhamentos, tão comuns em viagens do tipo, também fazem parte do aprendizado que os olhos me proporcionam. Cada cabelo cuidadosamente esculpido em gel ou aplique virava meu pescoço. O trânsito, terra sem lei, ressignificou a palavra "caos" e o Vale das Bonecas tornou real um passeio de encantamento. Os cheiros fortes  fizeram meu estômago dar cambalhota por diversas vezes. A ardência da pimenta e o feijão no café da manhã tornaram meu paladar um tanto seletivo.

Sabores, cores, odores e amores remexidos eram refletidos em corações de lata que ornavam as portas das casas. Cravos vermelhos pelas esquinas deixaram meus olhos com aquela vontade de ficar mais um pouquinho para dançar em animadas festas descobertas nos becos da cidade.

Meu olhar de turista, mesmo depois da volta, parece refletir o brilho dos deslocamentos em nuances que a boca não consegue pronunciar. Como quem chega do "Umbigo da Lua", despido da armadura e vestido de [des]conhecimentos, o retorno mostra saudades e vontades que, em pulsação tranquila, podem desenhar realidades.

Fotos: Wolney Fernandes e Rosi Martins

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Barcas de Xochimilco

Linda Rosita, Naomi Alejandra, Karla Margarita, Maria Fernanda, Linda Yoselin, Dulce Adriana, Sofia Karen, Karla Patrícia, Lupita Margarita, Chapis Conchita, Magali Consuelito, Linda Salomé, Dulce Maricruz, Paola Viridiana, Maria Teresita...

Foto: Wolney Fernandes

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Zona Rosa

Segundo o guia da Cidade do México, a Zona Rosa é o triângulo perigoso da região. Desavisado, foi aqui que vim parar no desenho elaborado pela agência de viagem. Por aqui, menino com menino andam de mãos dadas, casais de meia idade trocam afetos no cantinho da estação e as namoradas, sentadas na beirinha da calçada, dizem juras de amor.

É por aqui também que famílias inteiras fazem fotos no "Monumento a la Independencia" em tardes de domingo. Em quase toda esquina, sem nenhum estranhamento, há uma Sex Shop dividindo parede com farmácias e restaurantes. As avenidas, cortadas ao meio por canteiros, têm o fluxo de trânsito em um mesmo sentido e imagens da Virgem de Guadalupe guardam as portas das casas noturnas.

Se há perigo, ainda não sei, ainda não vi... Só sei que de rosa não se pinta a palavra "perigo". Aqui, de rosa se pintam as fachadas e o algodão-doce do moço da esquina.



Fotos: Wolney Fernandes

domingo, 10 de julho de 2011

Trindade Mexicana

A Trindade que rege a Cidade do México é formada por três figuras femininas:

Catrina


Frida Kahlo


Virgem de Guadalupe

sábado, 9 de julho de 2011

Olhar embriagado

Depois da esquina, na barraquinha do engraxate, homens e mulheres interrompem seus itinerários diários para fazer os sapatos reluzirem o embaraçado da cidade. Engraxar e lustrar sapatos por aqui é lei. No banheiro do hotel, parecendo um inciso silencioso deste código, há entre os sabonetes e xampus, uma pomada para tal operação. Meu tênis, desenchavido, parece me lembrar que o ideal seria andar pelas ruas com sapato de couro reluzente.

Na banca para cortar cabelo, há dezenas de cortes-modelo dispostos em fotos coladas uma ao lado da outra. Cliente chega, escolhe o corte pela foto e sai alinhado a caminhar entre as buzinas que cruzam as ruas caóticas da Cidade de México. Na viela antes do metrô, o sex-shop é vizinho das barracas com comidas variadas de cores contrastantes, cheiros inconfundíveis e gostos desconhecidos. No metrô, enquanto a personagem de uma novela mexicana embebe os cílios com rímel preto, uma senhora mendiga, canta dolorosamente as dores de uma vida de privações.

Os policiais, verdadeiros bufões, empertigados em cima de caixotes, olham de cima o casal de namoradas em demonstrações públicas de afeto. Se há funcionários marchando pelos corredores do aeroporto [um! dois! um! dois! um...), há também os dançarinos que enfeitam as fachadas de salsa e merengue das casas noturnas da Zona Rosa. Os mariachis, de terno e gravata, embalam almoços de final de tarde com canções de amor que desenham os dramas de um povo muito acolhedor.

Vista de cima, o traçado cartesiano das ruas pode até esconder o embaraçado e o colorido da cidade. Porém, bastam dois dias para que as cores, situações e pessoas de contrastes variados, surjam em generosas doses que embriagam o olhar. Dame otro tequila, por favor!

Fotos: Wolney Fernandes