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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Autoajuda disfarçada de autobiografia


A atriz Agnes Zuliani, travestida de Carlota Joaquina, em um texto bem ágil do show de humor "Terça Insana", decreta: "Livro de autoajuda foi ajuda para quem escreveu". Essa máxima se aplica com perfeição ao livro "Eu" de Ricky Martin que terminei de ler esta semana.

Antes que os intelectuais de plantão atirem a primeira pedra, convém explicar que todas as restrições [preconceitos?] que eu mesmo levantei diante da publicação na ocasião de seu lançamento caíram por terra quando li no blog do jornalista Zeca Camargo uma indicação do livro. A provocação que ele fez no texto do blog atiçou minha curiosidade e resolvi encarar a leitura.

É claro que não foi só pela indicação. Confesso que os relatos autobiográficos sempre me instigaram. A escrita na primeira pessoa produz grande fascínio em mim que, em momento oportuno, valeria uma postagem a respeito do assunto.

Havia também toda discussão levantada entorno da publicação que chegou ao mercado editorial alguns meses depois do anúncio [surpreendente?] da homossexualidade do autor. Saber das questões, inquietações, acontecimentos e procedimentos que levaram um astro pop a assumir publicamente sua condição é, no mínimo, instigante e provocadora diante de uma realidade heternormativa - o que, necessariamente, não deveria ser motivo para anúncios oficiais ou pauta para manchetes de jornais e revistas, mas isso também é assunto para outra postagem.

Cheguei ao final com aquela sensação de que o livro com mais de 200 páginas poderia ser resumido em uma lauda sem prejudicar sua consistência. Em nenhum ponto a narrativa consegue se aprofundar nas questões relacionadas por ele, como a própria sexualidade ou o sucesso que ele precisou encarar muito cedo quando passou a integrar o grupo Menudo.

A forma como ele repete os mantras manjados dos livros de autoajuda incomoda demais: "Sofrimento (?!) me trouxe maturidade", "Acreditei e venci", "Foi a hora certa", "Estou em meu melhor momento", "Vamos lutar pela paz mundial"  e por aí vai... Ao final da narrativa, ele se apresenta como um personagem raso e bidimensional, cuja vida, boa e perfeita demais, não parece real. E, se a ocultação das ranhuras que marcam as incoerências tão comuns do cotidiano parece uma escolha para ajudar quem escreveu, não se mostrou nem um pouco interessante para quem leu.

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