Páginas

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Autoajuda nº 2

Tava aqui pensando em como não "ser" professor. É, talvez "estar" professor seja uma boa conjugação para posturas diferenciadas diante das verticalidades tradicionalmente vinculadas a esse ofício. "Ser" professor é condição que ainda carrega supremacias porque elas são cultivadas, dia a dia, pelos vícios e endurecimentos que atribuímos ao verbo "ser" desta profissão. Foi pensando nisso que, a seguir, apresento minha autoajuda nº 2 [versão 2010 para professores] .

Ser professor é erguer trincheiras e traçar estratégias para se defender do aluno (leia-se "inimigo") que a qualquer hora pode atacar.
Estar professor é brincar em quintais repletos de novidades, ora sendo o dono da bola, ora se divertindo com o brinquedo alheio.

Ser professor é dar voz a quem não tem.
Estar professor é dialogar pela escuta e [re]conhecimento de outras vozes que não a própria.

Ser professor é construir saberes para a vida.
Estar professor é questionar certezas, instaurar conflitos e [re]elaborar saberes e fazeres.

Ser professor é dar prova 'ferrada' e mostrar pulso firme, mesmo que para isso seja necessário reprovar metade da turma.
Estar professor é repartir responsabilidades e não ficar imune à indiferenças que, ocasionalmente, se espalham pela sala de aula.

Ser professor é reconhecer o próprio lugar e mostrar o devido lugar de cada um.
Estar professor é estranhar o lugar que se ocupa a ponto de dançar em campos movediços para, assim, ensinar de vez em quando e aprender sempre.

Estar professor é ainda, resistir a endurecimentos esperados e, por isso mesmo, vez por outra, ser considerado fraco, relapso e incapaz... e aguentar firme! Porque caminhar por outros trieiros, não significa abrir mão de horizontes a serem alcançados com o rigor e o suor necessários a qualquer jornada.

Sei que é ingenuidade da minha parte, imaginar que toda a complexidade deste ofício pode ser expremida em breves parágrafos de uma simples postagem com 'cara' de autoajuda. Mas é pelo exercício de imaginar que eu também consigo elaborar significados variados e possíveis. Pela novidade dos sentidos, abrem-se ranhuras, fissuras e rachaduras que desenham lugares entre o "ser" e o "estar" onde é possível habitar.

Este texto nasceu dos estranhamentos entre ser e estar professor. Em cumplicidades trocadas entre mim e a Rosi - companheira de ofício, 'risaiadas' e desabafos em tardes quentes de outubro.
Imagem: Wolney Fernandes

Nenhum comentário: