terça-feira, 29 de junho de 2010

Catador de Cultura Visual

No tapume da construção


No muro da esquina


Na feira do Cerrado


Na banca de revistas


No beco do Centro


No mural da Faculdade de Artes Visuais da UFG


Na fachada da loja

Em papel de seda e fita crepe

Cortando retratos em papel de seda.
Montando feições com espelho e fita crepe.

Imagem: Wolney Fernandes

Sobre lembranças e esquecimentos

Pra começar o que já teve início há muito tempo:
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“O passado nunca se constituiria, se não coexistisse com o presente do qual ele é passado.” [Deleuze]
"...a memória, no singular, é a matéria-prima única para diversos tipos de invenção." [Paulo Roberto Pires]
"A lembrança pura, com efeito é, por hipótese, a representação de um objeto ausente." [Bergson]
"Chão da infância. Algumas lembranças me parecem fixadas nesse chão movediço..." [Lygia Fagundes Telles]
"Fica o que significa." [Marilena Chaui]
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Busco lugares desconhecidos, afetos que me atravessam, marcas no espaço, vestígios de mim e esquecimentos presentes.
Imagem: Montagem sobre foto capturada em http://www.flickr.com/photos/30886604@N04/2897368491/

domingo, 27 de junho de 2010

Dores que brincam

Meu olhar no espelho não reconhecia meus próprios traços. Quem era aquele estranho de olhos grandes, queixo retraído e cabelo desgrenhado que me encarava com pontos de interrogação sem medidas? Foi ali, diante da penteadeira da minha mãe que minha infância escorreu entre os reflexos de uma adolescência que se iniciava sem minha permissão.

Crescer não estava nos meus planos e, por vezes, ainda tento voltar àquela criança encantada diante do mundo. Mas os encantamentos que brotavam dos meus olhos naquele período, também faziam germinar medos pelo meu corpo inteiro. Queria fazer parte do mundo, mas não tinha a chave para habitá-lo e, por isso, me escondia.

Meus esconderijos me permitiam observar ao meu redor sem ser notado porque todas as minhas tentativas de fazer parte da roda eram frustradas pelas minhas vontades que não condiziam com as vontades dos outros. De alguma forma não me encaixava e, até hoje, sigo tentando ajeitar um lugarzinho para habitar. Brincando de pronunciar alegrias, quando, na verdade, minha fluência são as tristezas.

O sabor da infância, mesmo diante da realidade, por vezes cruel, não me deixou. Ele permanece em instantes bem particulares, difíceis de desfiar em palavras descritivas. Talvez eu não dê importância para o adulto que me tornei porque o gostinho daquela vida de menino que não se incomodava com a própria imagem no espelho ainda esteja em minha boca.

De verdade, o adulto que veio depois daquele menino só quer terminar as tarefas que lhe foram atribuídas para voltar para o quintal e, de lá, inventar brincadeiras sem começo e sem fim.

Há ainda aquela estranha sensação de que não aproveitei tudo no tempo certo. Todos os desvelamentos sobre a minha própria condição chegaram tardiamente como se eu pudesse esticar o tempo e repousar em eternidades inventadas. Só fui lembrado que o tempo da vida é finito quando perdi meu pai e a morte riscou por cima dos meus desenhos um traçado estranho sobre o qual eu deveria caminhar dali em diante.

De lá pra cá, cada fio prateado ou ruga em meu rosto assimétrico refletem imagens sem finalizações. Diante delas e de todas as perguntas que ficaram sem repostas, inventei um jogo solitário que me colocou no movimento de "ir sem nunca chegar". Paradoxalmente, sem esse movimento não teria conseguido chegar até aqui.

Mas e daqui em diante? Apenas jogos inventados parecem não bastar para dar conta de toda essa "adultice" patológica que me toma por inteiro. As alegrias que pronuncio me enganam de mim mesmo enquanto minhas tristezas não fazem nada. E assim permaneço... ou pior, envelheço guardando dores perdidas de ontem, anteontem e de anos atrás.

Por hora, nesta madrugada de junho, só um pensamento vai me fazer dormir: O de que a dor também gosta de brincar. E assim, quando ela parece vir para aquietar a gente, na verdade, ela vem mesmo é pra gente pegar impulso.

Imagem: "O Filho do Homem" de René Magritte.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Datilografando

"asdfg asdfg asdfg asdfg asdfg asdfg asdfg asdfg asdfg asdfg"
19 anos depois, a máquina Hermes Baby aterrisou no meu quarto. Tão linda e tão vermelha quanto o desejo guardado em minha memória.

Foto: Wolney Fernandes

Morte aos Papagaios

Para questionar quem faz design do “jeito certo”, discutir verdades absolutas, discordar dos discursos instaurados e colocar nossas experiências pessoais e nossa história de vida no design que fazemos. Morte aos Papagaios!

"Nosso repertório real nada mais é do que aquilo que somos. [...] Saber quem realmente somos, quais são as nossas reais referências sejam elas eruditas ou não, estejam elas na moda ou não. Nos aprofundarmos nas coisas que realmente nos interessam. Não nos preocuparmos em repetir os códigos 'certos', mas nos preocuparmos em criar nosso próprio alfabeto de idéias.
[...] E a única verdade possível é a sensível. Uma verdade individual, o submerso e intransferível 'eu' que cada um de nós carrega consigo. Elementos diversos apreendidos das mais aleatórias fontes de nossa vida e que incorporamos de fato a nossos hábitos, prazeres e opiniões. Elementos depositados e encadeados sem qualquer organização hierárquica. [...] Além de um necessário raciocínio objetivo, nosso trabalho é aquilo que sentimos e pensamos, nada mais."

Livro: Morte aos papagaios
Autor: Gustavo Piqueira
Editora: Ateliê Editorial

Aqui

01. Here comes the rain again - Eurythmics
02. Come Here - Kath Bloom
03. Here we go again - Norah Jones & Ray Charles
04. Stay here Forever - Jewel
05. Glad you're here - Macy Gray & Fergie
06. Here comes your man - Meaghan Smith
07. Here with me - Dido
08. Here we go again - James Blunt
09. Here we are - Breaking Benjamin
10. Aqui - Ana Carolina

Imagem capturada em http://www.tapedeck.org/icm/

Estampas irresistíveis

Bruxas e feiticeiras sem roupa (Camiseta da Amuleto)

Vidro de Merthiolate. Quem lembra?

segunda-feira, 21 de junho de 2010

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Três anos

Na mesa ao lado do computador estava o livro do Calvin & Haroldo que a Núbia me deu de presente de aniversário. Nas pontas dos dedos aquela vontade de escrever e mostrar que "eu ando pelo mundo prestando atenção em cores". Era junho de 2007. Dia 17.

De lá pra cá, tantas escrituras e urdiduras foram esboçadas em instantes possíveis:
1. Escrevi bilhetinhos apaixonados e uma dissertação de mestrado.
2. Viajei em imagens pintadas no muro da esquina e em Nova York.
3. Juntei Guns N'Roses e Wilson Simoninha em uma mesma playlist.
4. Catei retratos pela rua e fiz morada em paisagens em transição.
5. Plantei silêncio por semanas sem fim e escrevi incessantemente por dias a fio.
6. Entrelacei amizades e cumplicidades e com elas inventei um novo blog.
7. Falei de filmes que me atravessaram e me deixei atravessar por dores de amores.
8. Comprei livros, brinquedos e absurdos.
9. Fui Michelangelo, Frida Khalo e Magritte de uma vez só.
10. Desenhei e fui desenhado.

Foto: Wolney Fernandes

terça-feira, 15 de junho de 2010

"Se acaso..."

Visão, audição, tato, paladar, olfato e... memória. São seis os sentidos que marcaram minha relação com a narrativa do filme "Uma vida iluminada" (Everything is Illuminated, EUA, 2005). A história fala do tempo, que não cristaliza os acontecimentos, mas os reconstrói pelo perfume das lembranças. Marcas que aprofundam relações mais do que individuais, pois reforçam vínculos identitários espelhados nos objetos e nas histórias que precisam ser contadas.

O filme narra a viagem de Jonathan à Ucrânia em busca de Augustine, a mulher responsável por salvar seu avô da morte pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Jonathan é um jovem judeu norte-americano, colecionador de objetos familiares que são acondicionados em sacos plásticos, etiquetados, catalogados e expostos nas paredes de sua casa.

Seus objetos, tão distintos entre si (de dentaduras a fotografias), guardam como referência e linha que conduz a sua história familiar. Como um reordenamento do mundo, a coleção de Jonathan fala de escolhas, fala da vida e, é claro, de batatas... São esses objetos familiares - uma fotografia amarelada e um âmbar envolvendo um inseto - que faz com que nos desloquemos, ao lado do protagonista, a uma viagem de (sur)realidades iluminadas por significados que se constroem no presente ou que estão há tempos esquecidos.

Cada objeto guardado por nós, carrega consigo marcas de memórias e ao serem entrelaçados com os indivíduos e com outros objetos que vão sendo coletados constroem novas redes de significação. Como na caixa de pertences que, no filme, carrega um bilhete onde se lê “Se acaso...”

"Se Acaso...", nesse caso, se revela como pequenas eternidades que desenham horizontes além da nossa existência. Como diz uma das personagens do filme, ao discutir o gesto e as últimas palavras de sua irmã: a aliança foi guardada dentro do pote de vidro e enterrada não porque as pessoas que buscavam por ela existem, mas é por causa da existência deste ato [guardar a aliança em um pote) que elas vieram procurá-la: “Se acaso alguém a procurasse um dia”, era ali que ela estava.

É assim que desejo estar também em minhas miudezas, guardados e rabiscos em pedaços de papel sem valor.

Foto: Imagem capturada do próprio filme.

"O chão e o horizonte"

Ilustração para o livro "O chão e o horizonte - Eleições 2010".
E DEUS VIU QUE TUDO ERA BOM
Composto por Wolney Fernandes e Odailso Berté
Da obra "Criação" de Michelangelo

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Fora da Linha

Exposição Coletiva de Desenho
Turma de Design Gráfico - 3º período
Prof. Wolney Fernandes
09 a 18 de Junho de 2010
Nos corredores da Faculdade de Artes Visuais da UFG
Campus II

A exposição "Fora da Linha" reúne trabalhos realizados na disciplina de "Desenho - Processos e Procedimentos" com a turma do 3º período de design gráfico e mostra experimentações práticas usando materiais e suportes diversificados.

A exploração dos elementos compositivos da linguagem visual, sua expressão, materiais e técnicas apresentam o desenho para além dos limites tradicionalmente conhecidos.

A ampliação do repertório de referências visuais instaura possibilidades de intervenção na prática cotidiana e de construção de poéticas pessoais que tencionam acessos e geram novos modos de ver.

CORPOGRAFIAS DESALINHADAS
Traços concebem corpos em composições desalinhadas e tiram do prumo a proporção clássica do desenho da figura humana. O jornal é palco onde a gestualidade dança para (re)inventar proporcionalidades particulares.

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MARAVILHAS EMBARALHADAS
Alices se perdem e se encontram em desenhos com esmaltes, creme dental, açúcar e bombril. O País das Maravilhas se converte em País das Possibilidades naquela vontade de ampliar o repertório de criação e embaralhar materiais variados do cotidiano para desenhar.

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AZULEJO DE INFINITOS
Um único azulejo esconde imagens sem início e sem fim. Infinitas combinações e sombreamentos (re)velam desenhos que brincam de esconde-esconde com nossos olhos. Com carvão e papel, a brincadeira é apresentada em embrulhos e texturas.

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LIVRO DE ABSURDOS
O que é o absurdo? O registro das respostas a esta pergunta desenham as páginas de um pequeno livro com elaborações diversificadas acerca de um mesmo tema. A multiplicidade de sentidos rascunha cruzamentos de idéias e linguagens sensíveis à experiência de cada um/a.
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terça-feira, 1 de junho de 2010

Dos silêncios que me acordam

Sem sutilezas, o mês de junho me acorda dos silêncios. Reviro minhas fragilidades buscando desmanchar minha vida inventada e me espanto com tantas fachadas a ruir.

Me assombro quando percebo esse vazio sem nome no meu entorno.

Uma janela sem cortina faz escorrer luz pelo meu corpo e me coloco de pé sem aquela vontade de continuar só com minhas sombras e fantasmas. Minha urgência é desenhar, nas pálpebras do papel, imagens que revelam todas as pontes entre o desejo de mudança e a mudança em si.

Foto: Wolney Fernandes