domingo, 28 de março de 2010

Habitar fronteiras

É muito comum a demarcação de uma fronteira entre os campos da imagem e da escrita. Mesmo que, por vezes, a imagem seja tão contundente como a palavra e vice-versa. E mesmo em nome da igualdade, o que acaba prevalecendo é a diferença.

Minha atuação como professor de artes visuais no curso de design talvez não dilua esta fronteira, mas pelo menos tenta movê-la, estabelecendo possibilidades de travessias. Não é preciso escolher entre um campo e outro, pois há espaços intermediários onde é possível habitar.

Imagem: Composição elaborada com alguns nomes desenhados pela turma de Desenho do 3º período de Design Gráfico da UFG.


Ao alcance da vontade

Bom é saber que estão todos ali ao alcance da vontade que os olhos suscitam. Sem tempos ou trechos para terminar ou começar. Puro prazer em se perder sem querer ser encontrado.

Da esquerda para a direita:
- Alice no país das maravilhas - Lewis Carrol
- Precisamos falar sobre o Kevin - Lionel Shriver
- Para sempre teu, Caio F. - Paula Dip
- A vida que ninguém vê - Eliane Brum
- Agenda de Sabine - Nick Bantock
- O mundo acabou! - Alberto Villas
- Eu fui Vermeer - Frank Wynne
- Perto do Coração Selvagem - Clarice Lispector
- O Filho Eterno - Cristovão Tezza
- O Rei Branco - György Dragomán
- Vento da Lua - Antonio Muñoz Molina
- Meu Tio - Jean-Claude Carriére


Imagem: Wolney Fernandes

Onde desenho

Quando criança, meus desenhos eram riscados nas revistas de moda da minha mãe. Caderno de desenho era o cantinho em branco das páginas daquelas publicações. Na escola, as pautas do caderno eram possibilidades de imaginar trilhos, trançados e labirintos para meus rabiscos. Caderno de desenho de verdade, daqueles com papel de seda separando cada página e foto de lápis de cor na capa eu só tive à partir da quinta série. E ao final do primeiro mês de aula, as páginas já estavam todas ocupadas por meus traços descompassados. O que eu não falava, desenhava.

Hoje, apenas folhas brancas e sem pauta ja não me satisfazem mais. Quero desenhar em paredes, peles, calçadas, nuvens e corrupios. Quero traçar em superfícies marcadas pelo tempo como uma busca do que está escondido, do camuflado, do censurado, do esquecido que tende a emergir. E assim, em camadas cartografadas pelo desejo, me deixar desenhar pelo que vejo, ouço e faço.

Imagem: Wolney Fernandes

Cidadania em laranja e preto

Projeto gráfico e ilustrações para o material da Semana da Cidadania 2010.

A vida acontece no parque

Cena 1
O filho de mãos dadas com a mãe, pergunta:
- O que é garça?
A mãe pensa por um instante, ao passo que responde:
- Garça é um pato grande com um pescoço muito comprido.

Cena 2
Cinco crianças fazem algazarra à beira do lago porque uma delas conseguiu "pescar" um peixinho usando uma sacola de supermercado.

Cena 3
O namorado surpreende a namorada ao carregá-la no colo até a saída do parque.

Cena 4
Duas amigas se revezam em poses e fotografias, ora abraçadas em árvores, ora em posições lânguidas sobre o banco de concreto.

Cena 5
Uma tia grita desesperada ao ver que o sobrinho caiu no lago enquanto ela proseava com a amiga.

Cena 6
Sem trocar uma palavra, um casal de velhinhos olham a paisagem e aproveitam o final da tarde de domingo, silenciosamente.

Cena 7
Um menino abandona a bicicleta na entrada enquanto corre para comprar um saco de pipoca doce.

Imagem: Wolney Fernandes

sábado, 27 de março de 2010

O olhar insubordinado

"Olhar significa sentir o cheiro, tocar as diferentes texturas, perceber os gestos, as hesitações, os detalhes, apreender as outras expressões do que somos. [...] Olhar é um ato de silêncio.[...]
Olhar dá medo porque é risco. Se estivermos realmente decididos a enxergar não sabemos o que vamos ver. [...] Tudo o que somos de melhor é resultado do espanto. Como prescindir da possibilidade de se espantar? [...]

Tudo é um jeito de olhar. Você pode olhar para o infinito, como Carl Sagan, e descobrir que é feito da poeira de estrelas. E pode olhar para o chão e acreditar que é um cocô de cachorro. É o mesmo homem que tem diante de si o infinito e o chão. Mas é nessa decisão que cada um se define. Como olhar para você mesmo é uma escolha. Um exercício da liberdade, da autodeterminação, do livre-arbítrio. Seja generoso. Arrisque. Ouse. Olhe."


Trechos do ótimo livro "A vida que ninguém vê" de Eliane Brum.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Mensageiro de Outonos

Um pássaro de peito amarelo entrou pela porta e num vôo rápido e preciso sobrevoou nossas cabeças em direção à janela do outro lado do Setor de Comunicação da CAJU. Daquilo que serpenteia em minhas tentativas de dar sentido à visita daquele mensageiro alado, consigo extrair (apenas?) o despertar do outono em pedaços de nuvem e de brisa.

O vôo do pássaro de peito amarelo ventilou meu desejo de chuvas para perfumar o meu mundo, pois o cheiro de terra molhada é a minha sensação nostálgica e bucólica de felicidade.

Imagem: Wolney Fernandes - O pássaro logo depois do vôo, já tendo cumprido sua função de anunciar outonos.

domingo, 21 de março de 2010

Tardes de domingo

Queria instaurar nessas linhas uma maneira de não me repetir. Mas não consigo e volto sempre aos mesmos traços e cores para rabiscar pelo corpo. Protegido pelas cores, já não importa meus gritos e fragilidadades silenciosas de sempre. Tenho andado sozinho por aí sem propósito algum tentando sair de mim, mas não consigo. Nada mais doloroso do que a realidade, esse monstro de circustâncias que agride sonhos, preguiças e separa os amantes impondo solidões em tardes de domingo.

Imagem: Wolney Fernandes

As Horas

"Não se pode ter paz quando se evita a vida"

Do filme "As Horas"

Imagem capturada em http://colardeclips.blogspot.com/

Aconchegos da memória

Só de lembrar, aconchegos embalam meu coração:

1. Meu avô chegando lá em casa com braços cheios de abacates para os netos órfãos de pai.
2. Batidas de Sonho de Valsa e Kiwi com amigos e primos que, mesmo distantes, continuam tão próximos quanto naquele princípio da década de 90.
3. A banca da esquina em Pirenópolis, cheia de gibis e mundos a serem explorados por meus olhos escuros e ávidos por outras cores.
4. Sexta-feira da Paixão entre cenários e correrias para uma encenação que estreou amizades de vida inteira.
5. A viagem de volta - de Anápolis para Lagolândia - regada a notícias de cinema e fandangos.
6. O auditório da Faculdade de Artes lotado por uma platéia de afetos que 'ouviu com os olhos o que disseram minhas mãos' na defesa de mestrado.
7. A voz de Norah Jones e as texturas de Rothko embalando noites de lua e silêncios possíveis.

Imagem: Pintura nº 14 de Mark Rothko
PERCURSO DE CORTE E POSTURA
Composto por Wolney Fernandes e Odailso Berté.
Da obra "A coluna partida" de Frida Kahlo.

Outros modos de ver

Minha impaciência típica de filas que não andam fizeram com que eu perdesse o ínicio dos trailers do filme de sábado à noite. Entrei na sala escura apressadamente e me deparei com ela, perdida, olhando para cima e procurando algo ou alguém na invisibilidade de passos bem lentos. Tentei fazer uma ultrapassagem, mas a moça de camiseta amarela e óculos escuros me impedia de chegar à poltrona 19 da fila L.

Resmunguei e revirei os olhos soltando um suspiro e um pensamento impaciente - "Hunpf! Sem óculos escuros tenho certeza que chegaria ao seu lugar sem atrapalhar os ávidos cinéfilos que como eu não concebem entrar no cinema já com as luzes apagadas." - Parei por dois segundos e, em uma manobra de cintura, degraus e equilibrio de coca-cola, consegui fazer a ultrapassagem já aliviado por deixá-la para trás.

Já acomodado e feliz, percebi, alguns minutos depois que a mesma moça chegou acompanhada de um dos funcionários do cinema que a conduziu até a poltrona da fila bem à minha frente. Com surpresa notei que os óculos escuros na penumbra não eram charme e nem tampouco falta de noção. A garota de blusa amarela, mesmo cega, estava ali para 'assistir' o filme. Eu sim, naquele momento me sentindo completamente sem noção, afundei na poltrona e fui abraçado por minha insensibilidade a outros modos de ver.

Imagem: Wolney Fernandes

domingo, 14 de março de 2010

Meu Tio*

Amarelo e marrom eram as cores do meu ônibus. De todos os presentes que ganhei do meu tio, o ônibus de madeira que ele cuidadosamente fabricou para o sobrinho mais velho foi aquele que minha memória salvou do quarto dos esquecimentos. A tinta à óleo que fazia reluzir meu brinquedo ainda tem o cheiro das mãos habilidosas de Tio Joãozinho.

Nas paredes do seu quarto, eu me perdia pelas ruas de Lagolândia que ele pintava fazendo a ladeira da casa da minha avó escorrer por entre as rachaduras e frestas do reboco antigo. Não fosse reinventar o mundo com seus desenhos, Tio Joãozinho seria dono apenas de suas tintas, das garças esculpidas em madeira e do violão que ele tocava em afinações precisas.

Era aquele tio que, mesmo adulto, sabia mergulhar no mundo das crianças sem medos bobos de se perder em traquinagens e cores já bem esmaecidas aos olhos dos adultos. Era aquele tio que registrava em máquinas fotográficas sem foco, as imagens dos sobrinhos no quintal.

Ainda jovem, sofreu um acidente que lhe custou uma das pernas - substituída por uma prótese mecânica que lhe conferia uma altivez peculiar ao caminhar. Tinha porte de herói aos meus olhos, pois de suas mãos saíam brinquedos, afagos e moedas em troco que viravam balas e chicletes. Era um homem-menino que eu admirava porque enxergava minhas vontades de desenho e reclusão. E as respeitava!

Salvo precocemente de um casamento fracassado e sem filhos, ele nunca se ajustou àquele ambiente rural que vivíamos e, apesar de amar os seus, partiu se aventurando por lugares de calor e febre amarela. De lá, me escreveu cartas que vinham sempre ilustradas com desenhos que se abriam em viagens imaginárias. De lá, mandou modernas máquinas de costura para minha avó e camisetas que ele mesmo estampou para os irmãos e cunhadas.

Meu tio tinha nome de rei mago: Gaspar. Mas até hoje, é o diminuto apelido - Joãozinho - que faz com que o reconheçamos em memórias de uma infância entalhada em madeira, chicletes e caprichosas pinturas de amarelo e marrom.

Imagem: Eu e minha irmã fotografados no quintal de casa por Tio Joãozinho em fevereiro de 1986.

(*) Este texto foi escrito porque o livro "Meu Tio" de Jean-Claude Carriére não passou pelos meus olhos sem despertar minhas memórias de sobrinho.

sexta-feira, 12 de março de 2010

ETV 04

Proposta de Wolney Fernandes: Clique aqui para ver.

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De Wolney Fernandes, "Sonhador em Mares de Realidades Flutuantes".


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De Adriano Antunes, "Quixotesco".

Quisera ser algodão doce
Que na boca derrete
E à infância remete
Gosto de quero mais.
Por vezes, sou nuvem garoa
Que salpica a roupa
Mas não lava a alma.
Noutras, sou bolha de sabão
Circunferências de ausências
Que em segundos se vão.
Posso ser como areia ao vento
Dunas em movimento
Destino incerto, solidão.
Mas acabo breve
Como calor no inverno
Ou Chuva no verão.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Sobre neblinas goianas

Sabedorias de vô em palavras de mãe:

"Neblina baixa,
sol que racha!
Neblina na serra,
chuva na terra!"

Imagem da manhã de quarta-feira da janela do meu quarto.

sábado, 6 de março de 2010

Para me dar conta

O silêncio é hoje a única maneira de me manter apartado do mundo. Sem passeios pelo centro, sem telefonemas, nem cinemas ou desculpas pra mim mesmo. Daquilo que serpenteia impreciso em meu olhar, sempre consegui extrair motivação para construir ao meu redor um mundo novo, colorido, repleto de luzes indicadoras da vida em abundância.

Mas hoje, não! Hoje quero me perder nas imprecisões de minhas fraquezas e ficar bem quietinho para que, ao final do dia, possa me dar conta de que não há tempo suficiente e que, infortunamente, não posso viver para sempre!

Foto: Wolney Fernandes

quinta-feira, 4 de março de 2010

Dos fazeres/saberes acadêmicos

"Eu não escrevo teses,
eu só escrevo tesões,
não faço subversinhos,
só faço subversões."

Eliakin Rufino

- Trecho enviado por Manoela Afonso, amiga de blog e mestrado... de miudezas guardadas a serem descobertas.
- Foto da minha dissertação de Mestrado.

segunda-feira, 1 de março de 2010

CÉU DA MINHA BOCA
Composto por Wolney Fernandes e Odailso Berté.
Da obra "O Filho do Homem" de René Magritte.

Dúvida

Então... por qual começar?

Da esquerda para a direita:
- Onde vivem os Monstros - Maurice Sendak
- Clarice, - Benjamin Moser
- As Correções - Jonathan Franzen
- Tudo se Ilumina - Jonathan Safran Foer
- Satolep - Vitor Ramil
- Engolido pelas Labaredas - David Sedaris
- Eu falar bonito um dia - David Sedaris
- Jimmy Corrigan – o menino mais esperto do mundo - Chris Ware
- O Homem Duplicado - José Saramago
- Indez - Bartolomeu Campos de Queirós


Foto: Wolney Fernandes